Dorian Gray



Num passado distante e glorioso um homem ficou conhecido por sua extrema beleza, numa época em que não se sabia bem quais forças malignas estavam em operação sobre a face da terra, esse homem ousou, por pura vaidade, desejar que sua beleza e juventude jamais se desfizessem; seu maior medo era perder o vigor e a atratividade que sua face exercia não só sobre as mulheres, mas também sobre os homens. Por isso, num ato de arrogância e rebelião contra a natureza humana este homem invocou sombrias forças decaídas e ofereceu sua vida em troca da manutenção de sua juventude permanentemente. Jamais imaginou o quão terrível seria o preço pago por tal ato.
Em princípio pareceu não haver qualquer diferença, exceto que o narcisismo e o hedonismo cresciam violentamente nas profundezas de seu coração. O estilo de vida daquele homem também passou a demonstrar certos traços cada vez mais visíveis de uma incontrolável luxúria.
Tal homem finalmente se entregou a uma vida completamente sem qualquer tipo de freio moral ou consciência de certo e errado, ou, do bem e do mal; experimentou absolutamente todos os vícios que um ser humano comum jamais seria capaz de suportar, viajou pelo mundo entregando o próprio corpo a formas tão medonhas de prazer que mesmo as mentes mais pervertidas teriam certo receio em praticar, e mesmo assim seu corpo, sua beleza e sua juventude permaneciam perfeitamente imaculadas.
A essa altura, esse homem já havia descoberto e carregava um segredo sombrio que ocultava com todas as suas forças, uma belíssima pintura de si mesmo que, amaldiçoada, sofria todos os danos impostos pela vida de corrupção de seu possuidor e demonstrava cada vez mais o quão obscura a alma dele havia se tornado e o quão hedionda seria sua verdadeira face no futuro.
A beleza fina, angelical e imutável demonstrada pelo rosto do jovem mesmo com a passagem dos anos e décadas era, na verdade, nada além de uma máscara demoníaca que encobria e escondia toda a podridão e escuridão de seu espírito degradado; e, depois de uma série de acontecimentos que tiveram sua narrativa contada em um famoso romance no final do século 19; este homem acabou se arrependendo, mas ao tentar encontrar redenção e paz para seu espírito e alma corrompidos e atormentados, embora sua juventude continuasse perfeitamente intacta, acabou morrendo. Em seu último suspiro ele sentiu uma leve alegria, pois julgou que finalmente encontraria algum descanso, mas infelizmente não foi o fim.
Quatro anos depois de sua morte o homem acordou dentro do próprio caixão; dores terríveis fustigavam todo o seu corpo envelhecido e decrépito, não havia mais carne ou músculos, apenas os ossos e a pele pálida e ressecada, além disso, a única outra coisa que sentia era uma fome enlouquecedora que estava a ponto de destruir completamente o que ainda restava de sua sanidade. Ele se ergueu da própria cripta como uma criatura infernal, depois de forçar e arremessar ao solo a grande placa de mármore que lhe serviu como tampo para aquele que deveria ser o descanso eterno do seu corpo, mas obviamente algo havia dado errado, ele havia julgado que a maldição terminaria com a destruição da criatura presa dentro de seu retrato, mas não foi o que aconteceu; pelo contrário, agora ele havia finalmente se tornado o ser monstruoso que sua antiga vida corrupta já sugeria que fosse; em breve ele descobriria que os desejos depravados, insaciáveis e incontroláveis que sentira durante o tempo que viveu seriam muito mais violentos em sua pós-morte-vida. Possuir os corpos de mulheres e homens  já não seriam o suficiente, torturá-los e vê-los sofrer não seria o bastante; haveria um terrível e viciante preço a ser pago e este preço era o sangue, a partir daquela noite ele teria de beber sangue humano quente e vivo para aplacar sua agonia e caso não o fizesse, não morreria, mas perderia completamente a sanidade e se tornaria uma espécie de demônio insano e sedento que ceifaria a vida e beberia o sangue de quem encontrasse pela frente. De fato isso chegou a acontecer por duas vezes.
Sem opções, ele fugiu de sua cidade natal, onde também tinha sido sepultado, vagando pelas sombras e se alimentando dos desafortunados, doentes, inválidos, bêbados, drogados e promíscuos que cruzavam seu caminho nas madrugadas frias muitos dos quais conhecera em vida. Não havia mais nada nele daquele jovem e belo homem com rosto perfeito e postura de um lorde que despertava o desejo e muitos e a inveja de muitos outros; a face angelical do passado havia se tornando algo tão macabro que a simples visão dela era suficiente para fazer com que a maior parte das pessoas que a vissem sofressem um colapso.
Durante os anos seguintes ele vagou como uma sombra errante, um fantasma infernal, sempre se aproveitando das sombras nas noites para se aproximar das cidades e encontrar suas vítimas, tentou ficar sempre um passo à frente de sua fome irracional, mas mesmo assim por vezes teve de atender aos desejos de sua natureza obscura.
Com o passar do tempo ele percebeu que sua maldição ainda não estava completa, seus dentes estavam cada vez maiores e mais afiados, não apenas os caninos como foi no princípio, seus longos dedos ossudos eram garras poderosas, da mesma forma, sua força física, resistência e agilidade cresceram de uma maneira inimaginável, por outro lado, qualquer réstia de luz por menor que fosse o incomodava terrivelmente e por este motivo ele passou a viver sempre nos lugares mais escuros que encontrava, passou décadas habitando em esgotos, cavernas úmidas próximos de cachoeiras, em montanhas e interiores de florestas; tudo muito diferente dos grandes salões repletos de beleza, pompa, riqueza e ostentação dos quais usufruiu durante a vida. Tudo o que lhe restava era dor, fome, fúria, tormento, sombras e sangue; jamais haveria perdão, paz ou redenção; ele teria de carregar sua maldição para sempre.

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