Luz do sol



Sabrinni escutou o barulho e acordou; abriu os olhos no meio da escuridão de seu quarto e teve a nítida sensação de que havia mais alguém dentro de sua casa.
Mais barulhos vieram dos outros cômodos, não eram muito altos, mas podiam ser escutados, havia pessoas andando lá, ela não sabia quantas, mas tinha certeza de que sua casa tinha sido invadida. Os invasores estavam tentando não fazer muito barulho, mas obviamente estavam deixando alguns sons escaparem; ela chegou até a ouvir suas vozes sussurrando algo que não conseguiu entender.
A jovem morava sozinha em uma casa pequena e relativamente afastada das demais que formavam a vizinhança; escolhera aquele bairro para viver por causa da calma e da tranqüilidade; ela podia sair e retornar tarde da noite sem que houvesse qualquer problema, e além do mais, seus vizinhos eram pessoas trabalhadoras que aparentemente não tinham por costume passar o tempo reparando na vida alheia. Nunca soubera de qualquer caso de violência naquela vizinhança, os índices eram quase nulos.
As pessoas que estavam dentro da casa dela mexeram em algo e fizeram um pouco mais de barulho desta vez; Sabrinni não sabia ao certo se eles estavam sendo descuidados ou se estavam deliberadamente querendo atraí-la para o outro cômodo numa espécie de armadilha.
Algo estava muito errado.
Ela se levantou da cama do jeito mais suave que consegui; estava apenas usando roupas íntimas para dormir e tinha certeza de que se tentasse abrir qualquer porta do seu armário de roupas, aquele móvel antigo faria barulho suficiente para alertar os invasores de que a dona da casa havia acordado.
Deixando a preocupação com as roupas de lado, ela saiu da cama e se moveu pelo quarto o mais furtivamente possível, não havia nenhuma luz dentro do quarto, mas os olhos da jovem estavam perfeitamente adaptados àquela escuridão. Sabrinni alcançou a porta, encostou o ouvido para tentar escutar com mais clareza o que estava acontecendo do outro lado; havia pessoas falando baixo lá; ela conseguiu escutar três vozes distintas. Ficou tensa, sua garganta estava seca. Seriam ladrões comuns ou “profissionais”?
A jovem olhou ao redor, viu seu smartphone colocado sobre a pequena mesa ao lado da cama junto da chave do seu carro. Ela pegou o aparelho, mas não sabia para quem ligar, pensou em telefonar para o seu "pai", mas àquela hora ele não chegaria em tempo de ajudá-la. Não sabia o que fazer e o desespero começou a crescer dentro dela.
Não havia nada que ela pudesse usar como arma para se defender ali, na verdade, ela jamais imaginou que tivesse de passar por uma situação como aquela morando naquele bairro, tinha sido tão criteriosa na escolha, mas agora estava presa por estranhos em sua própria residência.
Voltou para junto da porta e ouviu os sons comedidos do outro lado, ela levou a mão vagarosamente até a maçaneta, segurou e girou com o máximo de cuidado que conseguiu e; mesmo assim, pode ouvir um pequeno estalo produzido pelo trinco se desprendendo do batente da porta, certamente os invasores tinham ouvido também porque imediatamente pararam de sussurrar do outro lado.
Sabrinni abriu uma pequena fresta entre a porta e o batente lateral, torcendo para que a escuridão servisse como camuflagem à sua manobra. Do outro lado, o próximo cômodo era a sala de sua casa, e pela pequena abertura ela pode ver que tudo parecia estar em perfeitas condições, nada havia sido modificado na costumeira arrumação que ela mantinha, exceto por duas pessoas vestidas totalmente de preto; uma estava estrategicamente encostada na parede à sua direita e a outra estava na parede oposta.
A jovem pensou pela primeira vez que era possível que ela não saísse viva daquela invasão, mas ela era uma pessoa muito concentrada e uma coisa mais urgente a estava intrigando. Momentos antes, Sabrinni tinha escutado três vozes sussurrando na sala, mas só estava vendo duas pessoas paradas lá, nem pareciam humanas, estavam tão imóveis quanto estátuas, além disso, faltava um invasor; certamente estava fora do campo de visão produzido pela pequena fresta da porta, mas ela tinha certeza absoluta de que havia mais um.
A moça fechou a porta novamente e outra vez o pequeno som do trinco apareceu baixo, mas audível. A jovem se afastou da porta respirando em haustos; estava intrigada. Por que os invasores estavam lá parados? Porque não entravam de uma vez no seu quarto se era isso o que queriam? Havia muitas dúvidas se formando na mente dela, mas ao mesmo tempo o desespero também aumentava.
Quase uma hora se passou sem que nada acontecesse, Sabrinni sabia que não podia esperar mais, tinha de tentar escapar e não havia outra forma de fazê-lo que não fosse tentando sair pela porta. Certamente aquelas pessoas que continuavam paradas na sua sala não eram assaltantes comuns, agora ela tinha certeza, pois nenhum bandido ficaria mais de uma hora parado sem esboçar qualquer ação. Ela estava em menor número e eles eram “profissionais”; nesse caso as opções se reduziam drasticamente. Era fugir ou morrer.
Reunindo coragem para o que viria a seguir, ela finalmente abriu a porta e tentou correr, mas não conseguiu fazer isso. Logo que passou do quarto para a sala recebeu uma facada que tentou acertar seu tórax; o terceiro invasor estava todo o tempo ao lado da porta à esquerda, e, portanto, fora da visão dela, porém, Sabrinni foi rápida o suficiente para se mover para a direita, com isso a faca penetrou o seu ombro; caso ela não tivesse se movido tão rápido certamente a faca teria perfurado seu coração, mas havia um detalhe que esclarecia tudo. O que perfurou o ombro da jovem não era uma faca, ela olhou bem para aquele artefato na mão de seu agressor, e era, na verdade, uma estaca de algum material metálico altamente perfurante e com pequenas cerras na extremidade mais aguda. Ela sentiu aquilo rasgar sua carne, mas não gritou. O ódio se inflamou dentro dela e quando ia avançar sobre seu agressor, os dois outros invasores abriram fogo. Estavam armados, não havia som nos disparos; as armas possuíam algum dispositivo que silenciava os projeteis, e pelo impacto das balas sobre o corpo daquela jovem franzina, ela soube que se tratava de armamento pesado. Eram caçadores profissionais.
O corpo dela foi jogado contra a parede pela força dos vários disparos, mas ela não caiu, ao invés disso liberou um grito animalesco que deixou claro que aquela bela jovem vestida apenas em roupas íntimas não tinha mais nada de humano, além da sua aparência.
Quando a primeira saraivada de balas parou, ela tentou atacar novamente, saltou sobre a parede como se fosse uma aranha gigante e como se a gravidade não existisse; seus olhos brilhavam no meio da escuridão e se contrapunham ao esverdeado dos óculos de visão noturna que os caçadores estavam usando. Sabrinni tentou correr pela parede como se fosse uma grande anomalia da natureza, mas foi novamente alvejada, novamente; seu corpo perfurado não sentia qualquer dor, mas o ódio e a sede a estavam consumindo por dentro. Ela gritava como um animal medonho e ao ser atingida outra vez foi jogada ao chão, qualquer pessoa não preparada, ao ver tal cena, certamente seria tomada por um terror tão violento que poderia levá-la a loucura.
Os caçadores finalmente deixaram sua formação e avançaram na direção de Sabrinni que se contorcia no chão, não por dor, mas por ódio.
Finalmente um deles disse:
_ O que fazemos agora?
Um dos outros respondeu:
_Levamos ela para fora.
Sabrinni queria beber cada um deles, rasgar os pescoços e sorver cada gota do sangue de suas veias, mas seu corpo estava muito ferido, levaria dias, talvez meses para se recuperar, mas ela não teria tanto tempo assim.
Um dos caçadores a amarrou pelas pernas e começou a arrastá-la enquanto falava:
_Como as pessoas não percebem essas coisas vivendo entre elas?
A resposta foi:
Olhe em volta, essas criaturas vivem como pessoas comuns exceto pelo fato de que alguns dormem durante o dia, não morrem com o tempo e se alimentam de sangue quente.
Finalmente Sabrini viu que estavam saindo de sua casa, o sol lá fora estava brilhando forte naquela manhã. Os caçadores sabiam que encontrariam uma casa preparada para deixar a luz do sol do lado de fora, havia cortinas grossas nas janelas e grandes peças preparadas de acrílico para manter as sombras dentro da casa.


A estaca e as balas não eram suficientes para terminar com a existência daquela jovem vampira, mas quando o corpo dela foi tocado pela luz da aurora o trabalho dos caçadores foi concluído.

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