Meliska



Eu precisava contar isso para alguém, mas estava com medo, não quero que ninguém se machuque; acho que dessa forma, por escrito e sem me identificar, não porei ninguém em perigo.
No último domingo do mês passado às 5:30 da manhã eu acordei com o som do meu telefone tocando, foi a ligação mais estranha que já recebi na vida, mas o que eu não sabia era que a parte mais sinistra ainda estava por vir. Logo que peguei o aparelho pude ver que era um amigo quem estava me ligando, mas não vou revelar o nome dele porque prometi que não o faria; o fato é que quando atendi a ligação logo percebi que havia algo errado, meu amigo estava com a voz alterada e a primeira coisa que disse foi:
_ Preciso de ajuda.
Levei alguns milésimos para assimilar aquilo, ainda estava com sono e não soube o que pensar, então tentei ser o mais direto possível, perguntei:
_ O que houve?
Ele me respondeu que estava precisando que eu fosse buscá-lo em um determinado lugar, isso soou muito estranho porque já não somos mais tão próximos quanto já fomos no passado, na época em que estudamos e trabalhamos juntos, atualmente eu ainda o considero como meu amigo, mas nós já não costumamos mais conviver tanto, parece que nossas vidas seguiram caminhos diferentes, já não trabalhamos juntos, não frequentamos mais os mesmos lugares e passamos mais tempo com pessoas diferentes, ele tem a turma dele e eu tenho a minha, na verdade ultimamente temos nos falado cada vez menos e muito mais por redes sociais, e quando nos encontramos em lugares ou eventos que ainda temos em comum, nossa conversa se limita a poucos assuntos como futebol, games e cinema; é o bastante para termos conteúdo suficiente para conversarmos por algum tempo, mas não é como antes, na verdade eu acho que dentro de alguns anos já nem seremos mais amigos, não sei como isso pode ser possível, mas estava acontecendo e principalmente agora depois do que nos aconteceu. Outro motivo pelo qual achei aquela ligação matinal estranha foi porque ele tem carro, costuma sair para toda parte, não precisaria de mim para dar qualquer carona exceto se tivesse batido o carro ou algo assim, além do mais, nunca me ligou tão cedo nem mesmo no dia do meu aniversário. Então insisti:
_ O que aconteceu? -- Perguntei.
O que eu não sabia era que o motivo dele me ligar foi justamente por estarmos nos tornando mais distantes, ao menos foi o que pensei. Ele respondeu que não sabia como contar e precisava que eu fosse lá ajudá-lo. Nesse momento pensei que ele tivesse se envolvido em um acidente de trânsito ou sido roubado, instintivamente perguntei se ele estava bem, mas a resposta me amedrontou.
_ Não sei se estou bem, mas estou com muito medo de não estar. _ ele disse, e continuou _ Por favor, vem até aqui.
Quando ouvi aquela frase eu pulei da cama e fiquei de pé, o sono sumiu e percebi que fosse o que fosse, era mais sério do que eu estava supondo.
_ Me diz onde você está? -- Perguntei com urgência na voz.
Ele me passou um endereço e embora eu conhecesse o local, jamais tinha visitado a rua onde ele disse que estaria, era um daquelas ruas pelas quais você passa quase diariamente quando vai trabalhar, mas nunca entra nelas. Logo que ele desligou encerrando a chamada eu corri para trocar de roupas, escovei os dentes, coloquei um boné para disfarçar minha cara “amassada” pelo sono que se foi; peguei minha carteira, a chave do carro, o telefone e finalmente saí, fiz todo este processo em cerca de quinze minutos e tive medo de estar esquecendo algo.
Peguei o carro na garagem e passei a próxima meia hora dirigindo até o local que ele havia dito, a manhã tinha acabado de começar a claridade da aurora ainda estava ganhando força e eu jamais podia imaginar que aquele movimento cósmico do nascer do sol estava empurrando os demônios da noite de volta para seus esconderijos, porém naquela manhã eu teria o meu entendimento de realidade violentamente confrontado.
Cheguei na rua onde meu amigo disse que estava, possuía casas antigas, mas bem cuidadas, alguns carros pareciam ter dormido nas calçadas; eu fui dirigindo bem devagar na esperança de avistá-lo, mas aparentemente ele não estava naquela rua, porém, quando eu já estava chegando à esquina o vi sentado em frente do que parecia ser um terreno baldio. Ele estava com as roupas sujas do que julguei ser sangue, usava óculos escuros e um tipo de cachecol preto ao redor do pescoço; parei o carro no momento em que ele se levantou, abri a porta e ele entrou.
A primeira coisa que fez ao sentar foi retirar os óculos revelando enormes olheiras arroxeadas ao redor dos seus olhos; aquilo me preocupou, não resisti e comecei perguntando:
_ Isso é sangue? -- apontei para a camisa dele.
No primeiro momento ele não disse nada ficou apenas olhando para o vidro frontal do carro, com o olhar perdido por causa de alguma memória em sua mente. Chamei ele pelo nome e repeti a pergunta. Finalmente ele respondeu secamente:
_É sangue sim, meu sangue.
Fiquei perplexo, havia muito sangue naquela camisa; minha primeira reação foi propor levé-lo a um hospital, mas imediatamente ele protestou dizendo:
_ Não posso ir a nenhum hospital, só quero ir para casa.
Eu retruquei:
_ Cara! Como assim, você não quer ir ao hospital? Olha a sua situação; todo esse sangue! Você deve estar muito ferido. -- Na minha cabeça ele tinha sido esfaqueado por alguém durante a madrugada, mas meu palpite logo se revelaria completamente errado.
Ele repetiu
_ Não vou para o hospital; preciso que você me leve pra casa e eu conto o que aconteceu, mas me leva pra casa, por favor.
Fiquei indeciso, estava muito preocupado, éramos amigos desde os treze anos e mesmo não estando tão próximos nos últimos anos, jamais pensei em vê-lo naquela situação. Além do rosto marcado pelas olheiras roxas, ele parecia extremamente cansado, tinha uma aparência anêmica e embora estivesse fazendo muito esforço para não demonstrar, estava mentalmente fragilizado com algo.
_ Só me leva pra casa. -- Ele balbuciou enquanto se recostava no banco e respirava fundo com os olhos fechados.
Por alguns segundos eu lutei contra minha própria mente entre levá-lo ou não ao hospital; rapidamente decidi que o melhor a fazer era procurar por ajuda profissional, mas quando comecei a dirigir ele abriu os olhos e começou a chorar, simplesmente desmoronou como eu nunca havia visto alguém fazer antes. Eu não sabia o que dizer então tentei ser simples e perguntei.
_ O que aconteceu com você?
A resposta me deixou confuso; ele disse:
_ Foi ela; aquela mulher fez isso comigo e eu nem sei como tudo aconteceu.
_ Que mulher? -- insisti.
Ele olhou para mim com os olhos vermelhos por causa do choro, seu rosto completamente molhado pelas lágrimas, e, retirou cuidadosamente o cachecol preto que mantinha enrolado ao pescoço, suas mãos tremiam enquanto fazia aquilo. Não pude acreditar no que vi e, pra ser sincero não soube o que pensar do que meus olhos estavam vendo; havia uma marca de mordida no pescoço dele, vários buracos demarcados pelos dentes que se cravaram na pele e na carne dele, havia sangue ainda sendo vertido por dois grandes furos, qualquer um que visse aquilo poderia jurar que ele foi atacado por um Pitbull ou algum cão de grande porte, foi o meu pensamento também, minha mente estava fazendo o que foi treinada para fazer desde que nasci, como humano racional, estava tentando encontrar um sentido naquele caos.
Meu amigo falou entre soluços:
_ Aquela mulher fez isso cara.
Antes que eu pudesse perguntar de qual mulher ele estava falando, ele suspendeu a camisa completamente manchada de sangue e mostrou as marcas que mais pareciam terem sido feitas por facas afiadas, entretanto, também se pareciam muito com rasgos feitos pelas garras de algum animal grande.
Ele falou novamente:
_ Acho que ela era um vampiro.
_O quê?! -- Quase dei um pulo no banco do carro quando ele falou aquilo, minha próxima reação foi pensar o clássico “vampiros não existem”, mas não disse nada porque ele continuou falando sem parar. _ Não sei o que aconteceu ou como, tudo o que me lembro é que eu fui a um bar com alguns amigos no sábado à noite, de lá resolvemos esticar para uma balada; depois de algumas cervejas eu percebi que uma mulher estava parada em uma mesa, sozinha, ela me olhava fixamente e parecia que ninguém mais a estava vendo. Fui até ela, era linda, lábios grossos, nariz e queixo finos, cabelos longos, olhos claros, pele ligeiramente pálida, grandes cílios escuros e sobrancelhas finas e perfeitamente desenhadas; tomamos algumas bebidas, na verdade, eu tomei, ela apenas conversava comigo tinha a voz mais suave que eu jamais ouvi e parecia que cada palavra dela estava entrando direto na minha mente sem passar por meus ouvidos antes, comecei a ficar tonto e de repente perdi parte dos sentidos, porém, continuei de pé; eu continuava bebendo e conversando, mas ao mesmo tempo eu não tinha mais controle do que estava fazendo, era como se meu corpo estivesse sob o controle de outra pessoa enquanto que minha mente parcialmente anestesiada apenas observava.
Ele parou de falar por um momento como se estivesse procurando as palavras certas ou a memória certa, em seguida retomou o relato. Eu continuei dirigindo e ouvindo.
Ele prosseguiu:
_ Lembro-me de ter segurado a mão dela, ela se aproximou do meu rosto e sussurrou algo no meu ouvido, me disse como se chamava e mais algumas palavras estranhas que não entendi, agora acho que foi algum tipo de bruxaria, depois disso nos levantamos e saímos, eu não queria sair, mas meu corpo não me obedecia. -- Ele parou novamente de falar.
_ E o que aconteceu depois cara? Como foi que você se machucou assim? -- Perguntei tentando achar algo racional no relato dele, eu pensei que a tal mulher fosse uma espécie de isca, sabe, daquelas que fazem parte de quadrilhas que colocam algo na bebida das pessoas e depois roubam o dinheiro, cartões ou outros itens como relógio e celular.
Ele balançou a cabeça negativamente enquanto fazia uma careta de dor. Disse:
_ Só lembro que acordei deitado em algum lugar escuro, não sei onde, ela estava debruçada sobre mim, senti uma dor terrível no pescoço, mas meu corpo parecia estar completamente anestesiado, demorei um pouco para perceber que ela estava bebendo meu sangue com muita força, foi a dor mais intensa que já senti; eu queria gritar, lutar, resistir, mas era como se o meu corpo estivesse desligado, pensei que fosse morrer, mas então ela parou de beber, ergueu a cabeça e olhou para mim com aqueles olhos estranhos de vampiro. Tudo em que eu acreditava de repente deixou de fazer sentido, eu tinha uma vampira bem diante de mim e ela estava prestes a me matar, ao menos foi o que pensei.
Ele continuou falando:
_ Ela sorriu para mim e engoliu o resto do sangue que ainda estava em sua boca. Aquela coisa parecia uma mulher, mas era uma espécie de monstro. Eu estava sem forças e foi então que comecei a duvidar se tudo aquilo era real. Finalmente ela falou com aquela voz estranhamente suave.
Ela disse: _ Você não vai morrer aqui, mas se procurar a polícia, for a algum hospital, contar a alguém ou tentar me encontrar, eu vou saber, e não terei escolha nem pena de matar você. Quando acordar, vá para casa, faça curativos simples nas feridas e elas vão cicatrizar logo. Viva como se isso nunca tivesse acontecido.
Ele respirou fundo recolhendo forças para terminar o relato, e disse:
_ Depois disso eu apaguei; acordei novamente naquele terreno onde você me encontrou, então te liguei.
Fiquei em silêncio sem saber o que falar por alguns minutos até que duas perguntas surgiram na minha cabeça e eu as fiz. A primeira foi:
_ Qual o nome dessa mulher?
Ele fez força para responder e falou:
_ Ela disse que se chamava Meliska.
A segunda pergunta que fiz foi:
_ E por que você me ligou? Já faz muito tempo que não nos encontrávamos.
Ele pensou na resposta:
_ Quando acordei, eu estava com muitas dores pelo corpo, não conseguia pensar direito, além disso, o celular estava na minha mão e o seu número estava na tela.
Ele me olhou com olhos de quem pede desculpa, e não entendi exatamente o porquê, mas não fazia diferença pra mim, continuei dirigindo até chegarmos na casa dele, o deixei lá e fui para a minha casa. Toda aquela história de vampiros me parecia muito mais algo inventado para esconder algo, talvez ele tivesse se metido com alguma mulher casada ou comprometida com alguém barra-pesada, talvez estivesse usando drogas ou tenha realmente sido vítima de algum tipo de violência que não queria me contar; tudo o que eu sabia era que não podia engolir aquela coisa de vampiro. Mas infelizmente minhas convicções também seriam testadas.

Duas semanas depois disso Meliska me encontrou, não sei como; mas o que ela fez comigo foi muito pior.

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