Fugitivos



A flecha atravessou o ombro da mulher que gritou açoitada pela dor e o impacto a cravou na lataria da lateral do carro capotado. Seu namorado também gritou implorando para que a vida dela fosse poupada.

Erick e Walesca dirigiam durante horas em uma estrada no meio do nada; era alta madrugada e o carro deles cortava a escuridão da pista sozinho, em altíssima velocidade e apenas com os faróis iluminando parte do caminho a frente, Erick dirigia enquanto a mulher ao seu lado descansava, ela não estava dormindo, mas tinham passado por muitas coisas nos últimos dias e estava tentando recuperar parte das energias gastas, na medida do possível. Fazia exatamente duas semanas que ambos estavam fugindo atravessando o país de carro, não tinham nenhuma intenção de ficar em qualquer lugar, tudo o que eles tinham em mente era continuar se movendo durante as noites e não fixar parada em lugar algum porque não sabiam ao certo o que estava ocorrendo com suas vidas, mas de uma coisa tinham certeza. Estavam sendo procurados.
Walesca abriu os olhos e se endireitou na cadeira, passou a mão nos cabelos do namorado e olhou pela janela à sua direita, as árvores da paisagem noturna à margem da estrada passava rápido como se fossem grandes fantasmas sombrios voando mais lento ao lado do veículo; a mulher piscou algumas vezes e perguntou:
_Como estamos de gasolina?
O Rapaz ao volante olhou para ela com um meio-sorriso no rosto e respondeu:
_ Temos pouco menos de meio tanque._ Ele estava se esforçando para não parecer preocupado, mas tudo o que conseguiu foi demonstrar mais preocupação.
Ambos voltaram a olhar para a escuridão na estrada à frente e o carro uma toyota hilux 2013 roubada continuava seu caminho como se não pudesse ser alcançada ou parada por nada nem por ninguém. Mas logo tudo mudou.
Enquanto Erick checava o GPS para averiguar onde poderia encontrar algum posto de combustíveis, ambos ouviram um gemido fraco no banco traseiro. O motorista ergueu o olhar e viu pelo retrovisor interno; ele perguntou:
_ Está com sede?
Ao que a mulher respondeu:
_ Um pouco.
O motorista inclinou a cabeça fazendo um movimento rápido para trás indicando para ela pegar algo no banco traseiro. Logo, Walesca retirou o cinto de segurança para conseguir se virar e do banco de trás do veículo ela segurou o braço de um homem que estava deitado ali. A mulher cravou os dentes alongados no pulso do homem que já estava muito debilitado, tanto seus pulsos quanto seu pescoço jaziam dilacerados pelas contínuas drenagens que os dois fugitivos faziam nele desde que roubaram seu carro e o fizeram seu refém; provavelmente aquele pobre homem não resistisse mais do que um ou, no máximo, dois dias.
Tanto ele quanto ela eram noctívagos a pouquíssimo tempo, Erick havia sido convertido primeiro e inebriado pelo dom da escuridão que recebeu e pelas possibilidades que isso poderia gerar, converteu a mulher que amava para compartilhar com ela a imortalidade e todos os benefícios daquela nova condição, o problema foi que ele não tinha permissão para fazer isso, e ao fazê-lo quebrou uma das únicas regras seguidas por partes dos vampiros ao redor do mundo que é: “Não se multiplicar indiscriminadamente”.
Não demorou muito tempo para que percebessem o que estava acontecendo e foi ordenado que ambos fossem eliminados pela quebra da regra, mas antes de serem encontrados eles fugiram, porém como eram recém convertidos ainda não tinham noção da abrangência dos noctívagos nem do que lhes esperava. Eles pensavam que se conseguissem fugir por alguns meses seriam esquecidos e deixados em paz, mas por sua falta de experiência em se alimentar, em sua fuga, estavam deixando um imenso rastro de sangue e pessoas desaparecidas, exatamente como aquele homem sequestrado no banco traseiro.
A certa altura do caminho algo passou pelo lado do carro como um vulto escuro em uma velocidade ainda maior, os dois levaram pouco tempo para perceber que se tratava de uma moto completamente preta, mas tinham certeza de que aquilo representava problemas porque a moto mantinha o farol desligado em plena madrugada e em uma estrada sem qualquer iluminação, souberam imediatamente que quem estava sobre a moto era uma criatura como eles. O piloto da moto se voltou para o carro logo atrás dele e com o braço estendido, segurando o que parecia ser uma arma, disparou algo; Erick levou um segundo para compreender que uma pequena flecha disparada de uma balestra na mão do motoqueiro vinha em sua direção, mas quando percebeu já era tarde, a flecha entrou pelo vitro frontal e quase lhe acertou o coração, felizmente, no desespero ele se moveu ligeiramente para o lado, mas mesmo assim foi atingido  bem no meio do tórax.
Ao ver aquela cena, Walesca entrou em pânico, não sabia como ajudar o namorado, mas nem teve tempo de pensar algo a respeito porque o motorista perdeu completamente o controle do carro que, ziguezagueou, saiu da estrada e capotou de modo cinematográfico na enorme faixa de terra que acompanhava lateralmente a pista. Uma enorme cacofonia de vidros estourando, metal amassando e todo tipo de sons característicos de um capotamento em alta velocidade pode ser ouvido; o carro parou com o teto completamente amassado voltado para o solo e as rodas para o ar, Erick só não foi arremessados para longe por causa do cinto de seguranças, além disso os airbags impediram que seu rosto batesse violentamente contra o volante, mas incrivelmente sua namorada, assim como o, moribundo, dono do carro que estava deitado no banco traseiro, agora jaziam estirados no chão em lugares diferentes longe do automóvel retorcido.
O motoqueiro fez a volta e parou em uma distância considerável do acidente, em seguida ele desmontou e caminhou calmamente na direção do antigo dono do carro roubado, Erick desprendeu o cinto de segurança e se arrastou para fora do carro através da janela e ao ver aquele motoqueiro misterioso teve sérias dúvidas de se conseguiria sair daquele lugar com vida. O motoqueiro não se parecia em nada com um motoqueiro comum, trajava roupas de couro que pareciam ter saído direto da idade média, repletas de pequenas anilhas de metal cordões, amarrações e fivelas no tórax, cintura e braços; além disso usava uma espécie de máscara que lhe cobria a maior parte do rosto, deixando unicamente os olhos e parte da testa à mostra, como um ninja. Ele trazia na mão direita uma balestra carregada com duas flechas menores do que o normal e na mão esquerda uma pequena espada japonesa.
Ao se aproximar do antigo dono do carro que, caído e quase morto, gemia por causa do sofrimento imposto a ele, o motoqueiro disparou uma flecha e finalmente acabou com a agonia daquela pobre vítima. Walesca tinha se levantado, havia sangue saindo por seus olhos, nariz e ouvidos, tinha vários ossos quebrados, mas sua condição vampírica impediu que o estrago fosse maior; ela correu, chorando, na direção do namorado que se arrastava no solo do outro lado do veículo, mas foi atravessada por uma flecha que atravessou o ar com um silvo cortante e a cravou, pelo ombro, contra a porta lateral do veículo. Ela gritou pela dor aguda causada pelo ferimento, mas também pela certeza de que morreria ali sem poder fazer nada, quando se tornou uma vampira, pensou que fosse viver para sempre e se tornar tão forte quanto algum antediluviano, jamais poderia imaginar que seria abatida como um animal e em tão pouco tempo.
Ao ver a cena, Erick gritou:
_  Não! Deixa ela em paz!
O ninja motoqueiro do inferno não deu a mínima atenção, caminhou ao redor do carro calmamente para verificar se não havia mais algum humano agonizando por ali e depois sacou mais duas flechas de uma aljava pendurada nas costas, para municiar sua balestra.
_ Eu não quero morrer!! _ gritava Walesca.
Erick tentava, em vão tranquilizar a namorada dizendo:
_Amor...Amor! Olha pra mim...Você não vai morrer… ouviu… olha pra mim… Você não vai morrer...Amor.
Mas a mulher parecia estar completamente em pânico e não ouvia nada do que o namorado dizia, ela continuava gritando. Erick tentou se levantar para correr até ela e abraçá-la, mas suas duas pernas estavam quebradas, então ele tentou se arrastar na direção de seu grande amor, mas viu aterrorizado que o monstro mascarado a alcançou primeiro e com disparando uma seta a curta distância atravessou o coração de Walesca que parou imediatamente de se debater e gritar; o corpo dela caiu e ficou pendurado completamente imóvel preso pelas duas flechas cravadas na carne da mulher e no metal da lataria do carro.
Aos prantos e desesperado o Jovem vampiro gritou?
_ Seu miserável! Você a matou!
O outro estava parado junto ao corpo da mulher, parecia um fantasma saído do inferno; ele olhava fixamente para o jovem vampiro caído; carregou a balestra retirando uma flecha da aljava, se aproximou de Erick, pisou na mão do que estava caído e disparou de modo que a seta atravessou e prendeu a mão dele no solo como um enorme prego, o mascarado repetiu aquilo na outra mão e nas duas pernas do vampiro caído que gritava e se contorcia de dor, os olhos dele já não eram humanos como antes, mas sim, ardiam em fúria, suas presas alongadas deixavam claro que sua natureza já não era humana, mas nada daquilo poderia salvá-lo naquela noite.
Após “pregar” sua vítima no solo com quatro setas, o mascarado se abaixou próximo do outro como se fosse sussurrar algo para aquele que estava indefeso, tirou a parte de baixo de sua máscara e Erick pode ver que seu algoz era pálido e também possuía dentes longos; mas aquele carrasco não disse nenhuma palavra, pelo contrário, cravou seus dentes no pescoço de Erick e bebeu o sangue da vítima até quase matá-lo; depois ele se levantou colocou novamente a máscara e se afastou. Subiu novamente sobre a moto e sumiu na noite como um vulto que poderia muito bem nunca ter estado ali. Aquele tipo de vampiro caçador era chamado sempre para confrontar caçadores humanos ou para punir e eliminar algum membro da “família” que quebrava alguma regra, o que era o caso ali naquela noite.
Erick agonizou durante o resto da madrugada e logo que a luz da manhã surgiu no céu, o sol se encarregou de terminar o serviço.


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