O Rapto de Luessa Teixeira


Regina continuava deitada dentro de um carro desconhecido, as mãos e pés muito bem amarrados; braços e pernas voltados para trás e os joelhos dobrados, a cabeça pendia encostada no assento e da maneira como ela estava deitada, não conseguia ver direito a pessoa que dirigia o veículo.
O carro sacudia levemente enquanto fazia um trajeto que ela não conhecia, tampouco podia ver em quais ruas estavam passando; era prisioneira ali e estava desesperada.
No banco da frente estava uma pessoa dirigindo o carro; era noite e tudo o que ela conseguia ver eram as luzes provavelmente de postes e letreiros luminosos passando como tochas pelos vidros molhados do lado de fora, mas era só.
O interior carro cheirava mal, ela não sabia ao certo, havia uma mixórdia de mofo, cheiro de lixo, e aroma de desinfetante de pinho barato; certamente alguma coisa estragada tinha sido carregada ali e tinham tentado disfarçar o cheiro. Regina se surpreendeu com o fato de chegar àquela conclusão.
Mesmo na escuridão do interior do veículo ela torceu o pescoço com esforço, moveu a cabeça e pode ver sua bolsa jogada no assoalho do automóvel, tentou novamente mover os braços, mas sem sucesso; estavam amarrados firmemente às costas dela, assim como suas pernas. Fez mais força e obteve o mesmo resultado.
Sempre tinha ouvido falar de seqüestradores, mas ela não possuía assim tanto dinheiro ou bens que a credenciassem para ser uma vítima de seqüestro; o que eliminava essa motivação; restava apenas uma conclusão. Aquilo podia não ser um seqüestro por motivo financeiro, mas sim com uma motivação mais sórdida e depravada; Regina era uma mulher relativamente bonita, capaz de atrair para si alguns olhares por onde passava e sabia manipular o próprio corpo com esse fim. Vestia-se de modo insinuante, sobretudo no trabalho.
Ao volante do carro uma figura alta, ombros largos e bem curvados para frente, seguia dirigindo como se não houvesse uma mulher amarrada e deitada no banco de trás, não era possível ver o rosto da pessoa; ela aguardou alguns minutos, mas o motorista não olhava para averiguar se sua vítima já tinha despertado ou não. Como se não bastasse tudo aquilo o motorista ainda usava um boné, o que dificultava ainda mais a visualização de qualquer traço peculiar da cabeça dele.
A noite tinha iniciado normalmente; Regina tinha acabado de sair do trabalho. Trabalhava como vendedora numa loja de roupas femininas de um shopping em Nova Iguaçu no horário de 16:00 às 22:00 hs já fazia um ano. E todas as noites quando saía do shopping tinha de caminhar pela rua do estabelecimento até chegar em frente à Prefeitura do município; um trajeto curto, pouco mais de duzentos metros.
Em Nova Iguaçu, por mais incrível que possa parecer, a prefeitura municipal fica exatamente ao lado do cemitério municipal, eles são separados apenas por uma rua estreita e diariamente Regina passava ali, geralmente o lugar era movimentado, a não ser, claro, em dias mais frios e chuvosos o que era exatamente o caso. Nesse dia também ela tinha se demorado mais do que o normal e só tinha saído do shopping por volta de 23:10, estava atolada de tarefas até o pescoço; eram as vendedoras, Regina e mais uma, quem arrumavam a loja para o dia seguinte todas as noites após o expediente, limpavam, separavam o lixo, arrumavam as vitrines trocando algumas peças do mostruário, limpavam os vidros e espelhos, fechavam o caixa e deixavam tudo devidamente em ordem para o próximo dia. Isso geralmente era feito pelas duas moças e desse modo terminavam tudo rapidamente, nunca passava de trinta minutos esse trabalho extra, mas por algum motivo, Karen, a outra vendedora, havia faltado e todo o trabalho teve de ser realizado por Regina. Havia mais uma menina que trabalhava na loja, mas ela pertencia ao horário da manhã, das 10:00 até as 16:00; fazia faculdade à noite e não pôde ficar para dobrar o dia de serviço e ajudar a amiga.
Quando finalmente saiu do shopping Regina caminhou pelo mesmo trajeto de sempre, mas sem ver ninguém nos pontos de parada de ônibus até a prefeitura, o cemitério estava fechado e também não tinha pessoa alguma no lugar onde ela tomava o coletivo.
Logo que chegou ao ponto, uma fina garoa voltou a cair do céu noturno e intensamente nublado; Regina averiguou em sua bolsa para pegar o dinheiro da passagem e deixá-lo logo à mão; o ônibus que ela tomava todas as noites não costumava demorar e daquele lugar até o município de Queimados, onde ela morava, também não demorava muito com o trânsito liberado da noite.
O carro onde ela estava parou de repente; ouviu-se um barulho que Regina não conseguiu distinguir; o motor foi desligado rapidamente e então ela pode escutar o tamborilar da chuva sobre o automóvel; aquele som estava sendo ocultado pelo alto ruído do carro em movimento que além de ter um motor extremamente barulhento ainda parecia estar com peças soltas em algum lugar.
O motorista abriu a porta e saiu do veículo; o ar noturno entrou no carro renovando o oxigênio pesado do interior, Regina pensou em gritar por ajuda, mas sufocou o grito ao pensar que poderia chamar atenção desnecessária para si, não sabia onde estava e nem quem estava lá fora, tampouco imaginava o que ele ou eles estavam fazendo ou intentando fazer. Além do obvio é claro.
A porta bateu com certa violência e por cerca de vinte minutos tudo foi silêncio. Ela estava com muito medo.
Naquela noite o ônibus demorou a aparecer e Regina tirou o telefone da bolsa para ligar pra casa, mas não chegou a fazer isso. Sentiu um puxão no ombro e tombou para trás, porém o corpo não chegou a cair, foi amparado por alguém e uma mão apertou seu rosto na altura do nariz e da boca com força, tapando-os; não conseguiu gritar. Sentiu o cheiro forte que a deixou tonta e com vontade de vomitar, em seguida apagou.
Quando a pessoa que dirigia o carro voltou, entrou e bateu a porta; ela ouviu o barulho de uma sacola de papel, provavelmente sendo depositada no banco ao lado, depois sentiu um cheiro conhecido e muito mais agradável do que o que estava sentindo até então. Um cheiro de hambúrguer.
A música do rádio começou a tocar logo que o motor voltou a fazer seu barulho característico, mas era uma música que Regina não conhecia. O carro voltou a andar e junto ao som do motor e do rádio havia agora também um terceiro; o som resmungante do limpador de pára-brisas fazendo seu trabalho.
O motorista murmurou alguma coisa ao volante, estava acompanhando a música debilmente, sem seguida o som do saco de papel novamente. A velocidade do carro tinha aumentado consideravelmente e ela tentou se mover sem ser notada, seus braços e pernas estavam com sensação de formigamento e o pescoço já doía de tanto forçar para manter a cabeça levantada. Nesse momento ela ouviu a voz do homem que dirigia; uma voz grossa, mas não era o que ela esperava; era calma, extremamente calma para um sujeito que estava seqüestrando uma pessoa.
_ Está acordada._ disse. Não foi uma pergunta e sim uma constatação.
Regina teve medo de dizer qualquer coisa e manteve o silêncio.
_ Devo ter usado pouco sufocante; nunca consigo acertar a quantidade desse líquido. Detesto fazer isso.
 Ele falava como se estivesse com a boca cheia, estava comendo algo, e ela se lembrou do cheiro do hambúrguer que agora já não conseguia mais sentir.
_ Não quer conversar comigo?_ Agora sim uma pergunta direta.
Como não houve resposta ele disse:
_ Ótimo. Faça como quiser.
Muita coisa estava passando pela cabeça dela naquele exato momento e também estava sendo uma dificuldade tremenda manter os pensamentos ordenados e não entrar totalmente em pânico.
Por fim ela perguntou:
_ O que eu estou fazendo aqui?
O motorista se inclinou levemente para o lado, Regina tinha a impressão de que ele a observava pelo espelho retrovisor interno embora ela não estivesse vendo claramente.
_ É complicado. _ foi uma resposta curta e dúbia.
_ Quem é você? Onde está me levando? Por que estou amarrada? Isso é um seqüestro?_ Regina despejou as perguntas que estavam presas na garganta tal como foram saindo, fez todas elas sem pensar que poderia não gostar das respostas.
_ Sabe; você está muito calma para uma pessoa que tem tantas dúvidas. Outros já estariam se desfazendo em lágrimas e implorando por suas vidas._ disse o motorista sinceramente impressionado, mas com um toque de sarcasmo na voz.
Regina piscou algumas vezes, o choro que ela mesma estava lutando para manter dentro do peito subiu com violência até a garganta também e por muito pouco não abriu caminho para fora de boca. O máximo que ela se permitiu fazer foi fungar.
_ Onde você está me levando? _ repetiu.
_ Para conhecer uma pessoa. _ O motorista respondeu friamente.
_ Que pessoa?
_ Uma pessoa especial; acredite, você vai gostar.
Uma série de cenas medonhas envolvendo submissão física passaram pela mente de Regina; seu coração disparou e a respiração aumentou a velocidade.
_ Me deixe ir.
Não ouve resposta. O carro continuava em velocidade; pelo tempo que estavam viajando ela já sabia que deviam estar longe de Nova Iguaçu, isso sem contar os momentos em que esteve desmaiada.
_ Você tem família? Digo, filhos, marido? _ perguntou o motorista se virando momentaneamente para trás pela primeira vez.
_ Não, mas tenho Pa...
Foi interrompida pela voz dele:
_ Geralmente procuro pessoas sem muitos conhecidos ou parentes que possam sentir suas faltas; sabe como é; fugitivos, andarilhos, moradores de rua, pivetes; às vezes um ou outro turista viajando sozinho e hospedado em albergues, quando dou sorte, esse tipo de pessoa. Mas nem sempre é possível manter o padrão. Essa gente não desperta tanto interesse nem chama tanta atenção e isso, para o meu dono, é o ideal.
_ Por favor, o que você vai fazer comigo?
_ Eu não farei nada, não gosto de sangue humano, mas...
Agora foi ele que se interrompeu obviamente percebendo que estava revelando mais do que devia. A última coisa que queria ali era uma mulher histérica dentro do carro; já tinha acontecido algumas vezes. E era uma situação difícil de contornar; teria que parar o veículo e usar mais solução sufocante; ou como também já aconteceu quando ele ainda não se utilizava aquele líquido, teria de fazê-la parar o escândalo à moda antiga, porém isso fazia muita sujeira. Por vezes acabou perdendo a vítima e seu dono-mestre-e-senhor gostava do alimento ainda vivo para poder saborear todo o pavor que provocava. Da última vez que a vítima se perdeu pelo caminho e não chegou viva até o destino ele recebeu uma punição tão violenta que nem gostava de recordar; seu mestre não costumava perdoar erros por menores que fossem e aquele motorista já fazia esse tipo de serviço por tanto tempo que tinha medo até de cogitar o que poderia acontecer se essa sua nova vítima não chegasse com vida.
_ Procure relaxar_ disse finalmente, tentando desconversar.
Parte do que Regina ouvia estava se perdendo, ela não conseguia manter a concentração na conversa; sua mente estava totalmente voltada para buscar uma forma de sair daquele carro. Forçou novamente os pulsos e braços na esperança de afrouxar as amarras que a mantinham presas e ao mesmo tempo virou o pescoço em busca de algo dentro do carro que pudesse ser usado como arma. Não achou nada.
A sensação de formigamento nos membros estava se tornando em dormência e ela sentia dores nos ombros, joelhos, pulsos e pescoço por causa do esforço brutal que vinha fazendo.
_ Você vai conhecer uma pessoa incrível._ Recomeçou o motorista_ Não se preocupe, depois de alguns minutos juntos você vai implorar para nunca mais deixá-lo.
Regina não compreendia o que aquele homem estava dizendo e não conseguia pensar em outra coisa que não fosse ser submetida a perversões; afinal, não havia motivo para um homem atacar e seqüestrar uma mulher no meio da noite; lançá-la num carro fedorento, rodar durante horas visando desnortear sua vítima se não fosse com aquela finalidade.
Lembrou-se rapidamente da história que pessoas contavam vez por outra nos bairros da periferia do município, quase uma lenda urbana; falando sobre um tarado num carro escuro que atacava mulheres desavisadas; ouvira aquilo muitas vezes desde a infância e estava começando a achar que seria mais uma a fazer parte das estatísticas. A dúvida que restava era se após aquilo ela seria libertada em algum lugar com vida ou não.
_ Por favor, moço, me deixe ir, juro que não conto nada a ninguém. _Ela estava decaindo de sua aparente tranqüilidade para um patamar mais normal de pânico inicial.
Ele já tinha visto aquilo muitas vezes e sabia que ainda estava dentro do tolerável, essa mulher parecia ter uma cabeça forte e por incrível que parecesse geralmente as mulheres tinham muito mais domínio em situações como aquela do que os homens; os homens desmoronavam em prantos logo que percebiam que não sairiam vivos ou que o grau de sofrimento pelo qual passariam seria enorme, choravam como crianças, apenas alguns destoavam desse padrão.
Já as mulheres que ele havia raptado ao longo dos últimos anos tinham se portado relativamente bem, exceto uma ou outra que reagiram muitíssimo mais violentamente do que todas as demais, mas suas estatísticas particulares mostravam que era muito melhor uma vítima do sexo feminino, geralmente mais fácil de se conseguir, não lutavam tanto quanto os homens e muito melhores de se transportar. Por isso, quando ele viu aquela jovem mulher parada sozinha num ponto de ônibus próximo ao cemitério municipal de Nova Iguaçu, não teve dúvidas; aproximou-se sorrateiramente e a atacou com a rapidez e a destreza de um assassino serial.
As dores aumentavam pelo corpo, Regina não conseguia mudar de posição para melhorar a dormência.
_ Qual é o seu nome? _ perguntou o motorista.
Regina não respondeu, estava ocupada gemendo baixo enquanto tentava girar sobre o seu próprio corpo.
_ Colabore, querida.
Ela respondeu com a voz já meio embargada.
_ Regina Luessa Texeira.
_ Sabe Regina._ Emendou _ Estamos chegando, espero que ele goste de você.
_Quem é ele? E o que quer comigo? _ Ela perguntou meio sem acreditar que haveria outra pessoa a espera deles em algum lugar; Regina pensava que o motorista estava apenas ganhando tempo enquanto buscava um lugar propício para efetuar seus intentos.
No meio das coisas que ele tinha dito até aquele momento ela tinha conseguido identificar palavras tais como sangue, e isso era um mau sinal.
_ Ele é Magnífico!_ exclamou o outro _ E tudo o que ele quer é seu sangue, não é nada pessoal, você estava no lugar errado na hora errada. Assim é que é a vida; mas acho até que ele pode gostar de você e talvez não matá-la hoje. É bem raro quando isso acontece, mas depois de conseguir pessoas para ele se alimentar durante tanto tempo eu acabei descobrindo as preferências dele, sabe; é isso que um servo tem de fazer, descobrir as preferências de seu senhor-e-mestre e fazer o possível para agradá-lo.
Regina estava chorando nesse momento; ao que tudo demonstrava não se tratava de um seqüestro de cunho sexual e sim uma ação para aplacar a sede de sangue de um assassino desequilibrado mental.
_ Por favor. Não faça isso... Não...
As palavras da mulher se reduziram a um murmúrio baixo e repetitivo. Como se estivesse agora se agarrando a rezas que certamente não poderiam livrá-la do que viria a seguir.
_Chegamos._ Disse o motorista secamente.
A palavra caiu como uma bomba sobre Regina e finalmente o choro ganhou força, abrindo caminho desde o interior da alma dela.
O motor do carro parou de funcionar e produzir aquele barulho característico, a chuva também parecia não cair mais do céu, o tamborilar sobre a lataria do carro não era mais ouvida. O rádio baixo que ela tinha ignorado durante quase todo o trajeto desde que o motorista o ligara agora fora silenciado.
A porta se abriu e o motorista saiu.
Do lado de fora uma voz desconhecida disse:
_ Você está atrasado._ Era uma voz firme.
Regina chorava bastante dentro do carro, o rosto já completamente molhado com as lágrimas e os soluços já quase a engasgavam; ela se contorcia tentando se desvencilhar das amarras.
O motorista respondeu:
_ Demorei para conseguir uma pessoa do seu gosto._ A voz do motorista soava submissa.
_ Homem ou mulher?
_ Mulher.
_ Ela está muito nervosa, posso sentir;
_ Procurei mantê-la calma, mestre.
_ Excelente.
_ Creio que o senhor vai poder bebê-la durante várias noites.
_ Deixe-me vê-la.
Regina continuava chorando copiosamente; revolvera-se tanto que caiu do banco traseiro e parte do seu corpo estava de ponta a cabeça. Ela pensava em todas as pessoas que conhecia; familiares, colegas de trabalho, antigos colegas de escola. Pensou em como eles ficariam quando ela não voltasse para casa naquela noite, nem para o trabalho no dia seguinte e jamais desse notícias.
Uma das portas de trás se abriu com um ruído grotesco e o motorista a puxou de forma bruta praticamente ignorando o peso dela. Regina bateu a cabeça em alguma coisa e finalmente avistou a face do homem que a raptara, um rosto comum, mas o outro; o mestre, não era nada comum, aliás, era completamente medonho.
Sem poder mais se controlar, Regina, ao ver aquele semblante inumano; aquela face monstruosa; irrompeu num grito terrivelmente alto que ecoou pela noite.

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