Dorian Gray



Num passado distante e glorioso um homem ficou conhecido por sua extrema beleza, numa época em que não se sabia bem quais forças malignas estavam em operação sobre a face da terra, esse homem ousou, por pura vaidade, desejar que sua beleza e juventude jamais se desfizessem; seu maior medo era perder o vigor e a atratividade que sua face exercia não só sobre as mulheres, mas também sobre os homens. Por isso, num ato de arrogância e rebelião contra a natureza humana este homem invocou sombrias forças decaídas e ofereceu sua vida em troca da manutenção de sua juventude permanentemente. Jamais imaginou o quão terrível seria o preço pago por tal ato.
Em princípio pareceu não haver qualquer diferença, exceto que o narcisismo e o hedonismo cresciam violentamente nas profundezas de seu coração. O estilo de vida daquele homem também passou a demonstrar certos traços cada vez mais visíveis de uma incontrolável luxúria.
Tal homem finalmente se entregou a uma vida completamente sem qualquer tipo de freio moral ou consciência de certo e errado, ou, do bem e do mal; experimentou absolutamente todos os vícios que um ser humano comum jamais seria capaz de suportar, viajou pelo mundo entregando o próprio corpo a formas tão medonhas de prazer que mesmo as mentes mais pervertidas teriam certo receio em praticar, e mesmo assim seu corpo, sua beleza e sua juventude permaneciam perfeitamente imaculadas.
A essa altura, esse homem já havia descoberto e carregava um segredo sombrio que ocultava com todas as suas forças, uma belíssima pintura de si mesmo que, amaldiçoada, sofria todos os danos impostos pela vida de corrupção de seu possuidor e demonstrava cada vez mais o quão obscura a alma dele havia se tornado e o quão hedionda seria sua verdadeira face no futuro.
A beleza fina, angelical e imutável demonstrada pelo rosto do jovem mesmo com a passagem dos anos e décadas era, na verdade, nada além de uma máscara demoníaca que encobria e escondia toda a podridão e escuridão de seu espírito degradado; e, depois de uma série de acontecimentos que tiveram sua narrativa contada em um famoso romance no final do século 19; este homem acabou se arrependendo, mas ao tentar encontrar redenção e paz para seu espírito e alma corrompidos e atormentados, embora sua juventude continuasse perfeitamente intacta, acabou morrendo. Em seu último suspiro ele sentiu uma leve alegria, pois julgou que finalmente encontraria algum descanso, mas infelizmente não foi o fim.
Quatro anos depois de sua morte o homem acordou dentro do próprio caixão; dores terríveis fustigavam todo o seu corpo envelhecido e decrépito, não havia mais carne ou músculos, apenas os ossos e a pele pálida e ressecada, além disso, a única outra coisa que sentia era uma fome enlouquecedora que estava a ponto de destruir completamente o que ainda restava de sua sanidade. Ele se ergueu da própria cripta como uma criatura infernal, depois de forçar e arremessar ao solo a grande placa de mármore que lhe serviu como tampo para aquele que deveria ser o descanso eterno do seu corpo, mas obviamente algo havia dado errado, ele havia julgado que a maldição terminaria com a destruição da criatura presa dentro de seu retrato, mas não foi o que aconteceu; pelo contrário, agora ele havia finalmente se tornado o ser monstruoso que sua antiga vida corrupta já sugeria que fosse; em breve ele descobriria que os desejos depravados, insaciáveis e incontroláveis que sentira durante o tempo que viveu seriam muito mais violentos em sua pós-morte-vida. Possuir os corpos de mulheres e homens  já não seriam o suficiente, torturá-los e vê-los sofrer não seria o bastante; haveria um terrível e viciante preço a ser pago e este preço era o sangue, a partir daquela noite ele teria de beber sangue humano quente e vivo para aplacar sua agonia e caso não o fizesse, não morreria, mas perderia completamente a sanidade e se tornaria uma espécie de demônio insano e sedento que ceifaria a vida e beberia o sangue de quem encontrasse pela frente. De fato isso chegou a acontecer por duas vezes.
Sem opções, ele fugiu de sua cidade natal, onde também tinha sido sepultado, vagando pelas sombras e se alimentando dos desafortunados, doentes, inválidos, bêbados, drogados e promíscuos que cruzavam seu caminho nas madrugadas frias muitos dos quais conhecera em vida. Não havia mais nada nele daquele jovem e belo homem com rosto perfeito e postura de um lorde que despertava o desejo e muitos e a inveja de muitos outros; a face angelical do passado havia se tornando algo tão macabro que a simples visão dela era suficiente para fazer com que a maior parte das pessoas que a vissem sofressem um colapso.
Durante os anos seguintes ele vagou como uma sombra errante, um fantasma infernal, sempre se aproveitando das sombras nas noites para se aproximar das cidades e encontrar suas vítimas, tentou ficar sempre um passo à frente de sua fome irracional, mas mesmo assim por vezes teve de atender aos desejos de sua natureza obscura.
Com o passar do tempo ele percebeu que sua maldição ainda não estava completa, seus dentes estavam cada vez maiores e mais afiados, não apenas os caninos como foi no princípio, seus longos dedos ossudos eram garras poderosas, da mesma forma, sua força física, resistência e agilidade cresceram de uma maneira inimaginável, por outro lado, qualquer réstia de luz por menor que fosse o incomodava terrivelmente e por este motivo ele passou a viver sempre nos lugares mais escuros que encontrava, passou décadas habitando em esgotos, cavernas úmidas próximos de cachoeiras, em montanhas e interiores de florestas; tudo muito diferente dos grandes salões repletos de beleza, pompa, riqueza e ostentação dos quais usufruiu durante a vida. Tudo o que lhe restava era dor, fome, fúria, tormento, sombras e sangue; jamais haveria perdão, paz ou redenção; ele teria de carregar sua maldição para sempre.

Espelhos quebrados. -- Contos vampíricos



Ouviu-se um grito pavoroso que assustou as pessoas.
Entrou pelo corredor lateral, na direita das fileiras de cadeiras, no escuro e gritando como um louco:
_Socorro! _ele dizia e chorava como uma criança_ Socorro!
As pessoas se levantaram, o filme foi interrompido; as luzes foram acesas e ele caiu no chão com o rosto ensanguentado, a camisa rasgada; faltava-lhe vários dentes na boca e um dos olhos estava muito inchado e avermelhado ao redor.
Uma voz se ergueu no meio das pessoas que se perguntavam o que era aquilo, era uma voz feminina.
_Caio!_ gritou a mulher.
A funcionária que ainda estava na sala esperando a sessão terminar correu em direção do rapaz caído e acionou a segurança através do rádio; em poucos minutos toda a sala estava cheia de pessoas uniformizadas; funcionários e seguranças do shopping e do cinema.
O jovem no chão chorava e reclamava das dores por todo o corpo enquanto uma mulher se aproximou das pessoas que o estavam atendendo.
_ É meu noivo! Meu noivo! _ dizia ela repetidas vezes.
As outras pessoas estavam apavoradas, não sabiam o que estava ocorrendo, mas a julgar pela forma como o rapaz estava, podiam deduzir que ele foi agredido, talvez tivesse sido ferido gravemente com uma arma qualquer. Mas ninguém imaginava o que realmente aconteceu.
O jovem estava muito ferido e começou a falar coisas sem o menor sentido; a cabeça dele estava cortada rusticamente, tinha sido cortada por algo não tão afiado, havia um grande rasgo vertendo sangue e um pó branco misturado aos cabelos molhados, parte do pescoço dele estava completamente dilacerado.
A noiva se aproximou abrindo caminho pelos curiosos que estavam de pé na sua fileira, e quando finalmente conseguiu se ajoelhar ao lado dele, viu que o jovem olhava fixamente para ela; com os olhos apavorados.
_Ela é...! _ele balbuciou_ Ela é...
Estendeu o braço para tentar tocar o rosto da noiva, mas ela recuou quando viu que os dedos dele estavam quebrados e desconjuntados; ela encostou na parede e teve de ser contida por outros funcionários, ficou histérica, começou a chorar e gritar, em seguida entrou em estado de choque.
Um princípio de pânico se instalou entre os presentes; as pessoas começaram a murmurar e especular o que teria acontecido.
Ambos, o rapaz e a moça, foram removidos horas depois em uma ambulância, para o hospital mais próximo onde receberiam os cuidados adequados.
***
Momentos antes, Caio havia entrado apressado no banheiro do cinema, nem percebeu que havia uma placa que dizia: “POR FAVOR NÃO ENTRE, BANHEIRO MASCULINO INTERDITADO, DIRIJA-SE AOS SANITÁRIOS DO SHOPPING”. Sua noiva, Mônica, estava na sala vendo o filme que ela tinha escolhido para o programa a dois daquela noite. Porém o filme era péssimo; um drama arrastado, onde nada de interessante acontecia; ao menos era assim que ele interpretou a película, além do mais, ele detestava filmes legendados, ao passo que sua noiva os adorava e para terminar ele não tinha o menor jeito para filmes com conteúdo um pouco mais reflexivo.
Ele gostava mesmo era dos velhos filmes de destruição em massa, com carros em alta velocidade, garotas em trajes menores, helicópteros em manobras arriscadas e muitos efeitos especiais, seus filmes preferidos sempre foram os da trilogia Matrix, mas ele tinha uma leve queda pelos filmes de terror também, obviamente com muita carnificina.

Os banheiros ficavam localizados em um pequeno local separado do lugar onde ficava o cinema; do outro lado havia um grande saguão onde as pessoas compravam os ingressos e se dirigiam para suas respectivas salas; três portas dispostas em posições distintas faziam com que a multidão se dividisse estrategicamente. A sala número 1 era a maior e ficava no lado esquerdo de quem entrava no cinema, mesmo lado dos guichês de compra de ingressos, que eram dois; a sala número 2 ficava ao fundo um pouco mais próxima dos banheiros masculino e feminino; e a sala 3 que era a menor de todas e geralmente exibia filmes com pouco apelo popular ou em final de temporada, ficava no lado direito dos que entravam no saguão do cinema, no mesmo lado do balcão de guloseimas.
Aquela era a última sessão do dia, tinha começado às 21:45 e deveria terminar por volta de 23:10, o shopping fechava às 22:00, parte das lojas no interior também, mas a praça de alimentação e algumas outras lojas funcionavam até mais tarde juntamente com o cinema que continuava até o horário do último filme, depois as pessoas deviam sair e não poderiam ficar mais andando nos corredores do lugar, deviam se encaminhar para a saída do shopping. Por isso muitos funcionários eram liberados e só ficavam aqueles que eram realmente necessários.
No saguão de entrada do cinema as luzes estavam parcialmente acesas, os funcionários do balcão de pipocas e doces já não estavam mais lá, a porta de entrada estava fechada, mas era possível ver o corredor meio iluminado lá fora porque as portas eram de vidro.
O banheiro também estava às escuras, Caio tateou a parede e não encontrou qualquer interruptor, mesmo assim as luzes se acenderam automaticamente, porém o jovem logo se assustou com o que viu.
Parte dos espelhos do banheiro estavam quebrados, havia seis ao todo, um ao lado do outro, e três estavam totalmente destruídos; provavelmente fruto de algum vandalismo ou quem sabe um acidente, não havia cacos do espelho no chão, o que fez com que ele presumisse que devia ter acontecido na sessão anterior a que eles estavam; provavelmente algum funcionário da limpeza comunicou ao responsável e limpou o lugar. Caio ainda não tinha fechado a porta, ele a segurava com uma das mãos e voltou-se para ela, finalmente viu o aviso, mas já era tarde para ele tentar sair até o banheiro de fora, afinal as portas estavam fechadas e a saída só se daria pelas parte interna das salas de exibição dos filmes. Ora, ele estava ali mesmo, e apertado, que mal poderia acontecer; ele se aliviaria e voltaria para a sala de filme a tempo de ver qualquer bobagem que ainda estivesse ocorrendo lá.

Ele soltou a porta e esta bateu sozinha, mas sem violência, era dotada de um mecanismo de molas que a fazia fechar suavemente; Caio foi até a primeira pia onde o espelho estava intacto, abriu a água da torneira e lavou parcialmente as mãos, queria tirar um pouco da manteiga e do sal que estava nelas; Mônica tinha se recusado a comer um conjunto de Guaraná gigante e "pipoca brutamontes", mas como ele sabia que não ia gostar do filme, passou a primeira hora devorando o lanche, porém o guaraná se encarregou de encher sua bexiga e levá-lo até o banheiro.
Depois de lavar as mãos, ele foi até o sanitário, urinou, mas foi interrompido antes de terminar.
De repente, um impacto forte sobre as costas e o corpo de Caio se projetou para frente tão rápido que ele não conseguiu reagir; o rosto do jovem se chocou contra a parede com tanta violência que alguns dentes se partiram instantaneamente. Antes que pudesse gritar ou esboçar reação alguma, ele sentiu a mão segurá-lo pela parte traseira da gola da camisa; levou mais um puxão e depois um novo empurrão contra a parede; agora foram os ossos do nariz e da testa que se partiram com um conjunto de pequenos estalos, Caio soube na hora, mas ainda não tinha conseguido discernir o que estava acontecendo.
A dor do nariz quebrado e o sangue que surgiu pelas narinas e na boca eram indícios de que sua vida corria muito perigo, mais até do que ele julgava; o mundo ainda estava rodando por causa dos dois impactos consecutivos na cabeça; obviamente a pessoa que o estava agredindo não deixaria espaço para que ele pudesse se recuperar e tentar alguma reação.
Outra mão o segurou também pela camisa, quase na altura da cintura, ele tentou fugir, correu mais estava sendo muito bem seguro, a camisa parecia que não ia se rasgar, mas um novo puxão cuidou de fazer com que acontecesse. A camisa rasgou parcialmente quando Caiu foi lançado contra a parede próxima ao sanitário que acabara de usar.
O agressor estava sempre as suas costas, não falava nada, não ofegava, parecia nem respirar. Caio tentou olhar para trás a fim de identificá-lo, mas recebeu um murro potente na face; o impacto fez a órbita ao redor de um dos olhos inchar. Caio gritou tanto de dor quanto de agonia.
A dor estava desnorteando ainda mais seus sentidos, por um momento sua visão ficou branca. Desesperadamente ele tentou livrar-se do agressor, levou as mãos às costas e tentou sem sucesso se desvencilhar das mãos que o prendiam; lutou como nunca antes, mas foi jogado de encontro a parede novamente, quase desmaiou.
A pessoa que o agredia era muito mais forte do que ele; Caio estava fazendo o máximo de força que podia, e todo aquele esforço parecia ser totalmente ineficaz.
 Tentou gritar mais uma vez:
_Socorr...
O agressor o segurou firmemente pela cabeça e deu com força a cabeça de Caio contra a louça do sanitário. O impacto foi tão violento que o sanitário se partiu, Caio sofreu um grande rasgo profundo na testa quando a louça quebrada e pontiaguda funcionou como um instrumento mal afiado, porém cortante.
_Aí meu Deus!_ Exclamou.
O desespero se tornou em pânico. Caio estava de joelhos, sempre seguro agora pelo ombro e um de seus braços que estava sendo terrivelmente torcido para trás a ponto de ser quebrado.
A água que vertia do sanitário agora escorria pelo chão, a parede fora salpicada com pequenos pontos vermelhos, o sangue de Caio, em meio aos movimentos frenéticos para tentar se desvencilhar do agressor ele estava espalhando sangue por todos os lados.
Quem quer que o estivesse dominando ali, arremessou Caio para o outro lado, na direção dos espelhos; ele se apoiou na pia onde tinha lavado as mãos, mas o fez de mal jeito, uma das mãos dele se chocou com violência demasiada; aquilo partiu algumas falanges de seus dedos. A dor foi lancinante.
Tentou gritar novamente, mas já não tinha forças e tudo que conseguiu emitir foi uma espécie de som indistinguível, desesperados e abafados, ele estava fazendo tanto esforço para se libertar dos ataques que já quase não tinha mais forças para gritar, estava concentrado unicamente em tentar sobreviver.
“Mônica”._ pensou.
A noiva devia estar lá na sala de projeções vendo o filme sem saber que ele estava sendo terrivelmente surrado por algum covarde, provavelmente um psicopata homicida.
A visão de Caio estava sendo prejudicada pelo sangue e o suor que escorriam para os olhos, os mesmos estavam inchados e ardendo bastante, mas quando ele finalmente se viu livre, sem que o agressor o estivesse prendendo o braço ou o ombro tentou virar para confrontá-lo de frente mesmo com o corpo já bem ferido e a falta de forças que o assolava.
Algo medonho aconteceu; foi bem rápido, mas antes que ele se voltasse, viu por um dos espelhos o reflexo da pessoa que o agredia tão desumanamente; não era um homem, e sim uma mulher com cabelos negros e longos, pele e rosto pálidos e olhos que pareciam prateados como se estivessem totalmente acesos; a mulher usava uma roupa branca que parecia ser um vestido longo. Ele não tinha certeza.
Caiu desistiu de virar para encará-la de frente, teve tanto medo que sentiu o líquido quente descer por suas pernas, obviamente, ele ainda não havia esvaziado a bexiga antes de ser atingido pela primeira vez.
As torneiras se abriram sozinhas chamando a atenção do rapaz que chorava vendo o reflexo daquela mulher; em seguida ela olhou para ele através do espelho, as pernas dele perderam o pouco de força que ainda tinham e uma dor fina o açoitou a cabeça, além disso, uma sensação de calor intenso tomou seu corpo, era o terror mais escondido que todo ser humano carrega dentro de si, em compartimentos sombrios que teimamos em ignorar durante toda a vida.
Os espelhos restantes se partiram em vários pedaços quando a mulher olhou para Caio através de um deles; e antes que a vítima pudesse pensar em qualquer outra coisa foi novamente atacado, porém não com murros e socos, mas sim com um abraço terrivelmente forte pelas costa. Ele sentiu os dentes finos perfurando a pele e a carne do seu pescoço, em seguida sentiu a dor provocada pelo sangue sendo drenado de seu corpo. 
A água que vertia das torneiras inundava todo o chão que também estava manchado pelo sangue do jovem completamente entregue nas mãos daquela monstruosidade disfarçada de mulher, porém, de repente, tão abruptamente quanto aquela criatura apareceu, também sumiu sem deixar vestígios.
Caio ainda conseguiu correr ignorando parte das dores diversas no corpo, saiu do banheiro abrindo a porta com a mão cujos dedos estavam quebrados; ele fez uma careta deformada mover a porta contribuiu ainda mais para tirar os ossos quebrados dos dedos de seus devidos lugares. Correu como se estivesse prestes a morrer, entrou na sala onde Mônica e os outros estavam assistindo o filme, com um grito aterrador, em parte pelas dores e em parte pelo pânico.

Baile de carnaval



Rosana, Mirela e Andréa planejaram a viagem de férias perfeitas durante dois anos, juntaram dinheiro e finalmente conseguiram concretizar o sonho de passar o carnaval na Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro parecia estar completamente envolto em uma aura de festa desde o aeroporto. Elas chegaram à cidade vindas de Porto Alegre, Rio Grande do Sul e logo no caminho para o hotel em Copacabana puderam presenciar vários blocos de rua desde o aterro do flamengo, passando pela enseada de botafogo e mesmo na avenida atlântica, que é a principal rua do bairro mais famoso da cidade.
Logo que chegaram ao hotel deixaram suas malas no quarto e passaram a tarde na praia, aproveitando o sol do verão carioca para ganhar um tom de pele mais bronzeado, beberam algumas cervejas, almoçaram, caminharam pelo calçadão da orla até próximo ao Forte de Copacabana, e tomaram banho de mar, é claro.
Durante o tempo em que estiveram na areia, elas presenciaram vários blocos extremamente animados passando pela rua e resolveram se juntar a um deles; havia um enorme carro de som, tocando músicas de carnaval e uma multidão absurda de foliões acompanhando, pulando, sorrindo, cantando e paquerando. Em determinados pontos do trajeto havia caminhões da prefeitura jogando água nos foliões para amenizar o calor de mais de quarenta graus e embora aquele banho fosse revigorante, quase ninguém parecia se incomodar com o calor.
Em certa altura do trajeto as amigas pararam em um quiosque para beber alguma coisa, estavam se divertindo bastante e já tinham rolado até alguns beijos em desconhecidos pelo caminho. Elas se sentaram em uma mesa e pediram três latinhas de cerveja; enquanto conversavam e tiravam algumas selfies e fotos do lugar e da praia ao fundo um grupo de mulheres se aproximou, estavam distribuindo o que parecia ser convites para alguma festa que aconteceria à noite em um lugar que elas não conheciam, mas pelas pesquisas que fizeram antes da viagem já tinham alguma ideia e de onde era e como podiam chegar lá.
Andréa abriu o convite, que dizia: “Vocês são nossas convidadas para a ‘Exclusive Mask Party’  melhor e mais sofisticada festa à fantasia da cidade que acontecerá hoje a partir de meia-noite no armazém 35, localizado no porto maravilha, próximo ao Museu do Amanhã e do Aquário do Rio. Mulheres não pagam para entrar e homens pagam 100 reais, traga suas melhores máscaras e fantasias. A entrada será limitada a um número restrito de convidados por noite, bebida e comida liberada. Venham se surpreender conosco.”
Depois de pensar por alguns minutos as amigas decidiram que era uma boa ir até aquele baile, elas obviamente jamais poderiam imaginar, mas aquela foi a pior decisão que tomaram em suas vidas. A tarde passou, elas acompanharam o por do sol entre banhos de mar, e mais blocos que passavam pela rua. Conheceram pessoas, homens e mulheres, de praticamente todos os continentes, ingleses, americanos, espanhóis, sul-africanos, chilenos, argentinos, japoneses, russos e até um pequeno grupo de indianos. O Rio de Janeiro havia se tornado em uma verdadeira Babel moderna repleta de línguas e sotaques de todas as partes do mundo, e embora elas já estivessem esperando por isso, estar na cidade fazendo parte de todo aquele movimento era algo único e extremamente enriquecedor.
Por volta de dez da noite as amigas deixaram o hotel, o carro da Uber já as estava esperando na frente e o motorista devidamente vestido em um terno escuro já tinha aberto a porta do veículo antecipadamente. O trajeto entre Copacabana e a zona portuária da cidade levou aproximadamente trinta minutos e logo elas estavam diante da entrada do armazém 35 completamente decorado com temas carnavalescos. Quando entraram puderam ver que o enorme espaço  estava apinhado de pessoas, muitas estavam completamente fantasiadas, outras tantas estavam apenas usando máscaras simples e havia um terceiro grupo, no qual elas estavam incluídas, que não estava usando nenhuma máscara ou fantasia.
Havia bares espalhados pelo espaço como se fossem estandes; no centro do lugar um enorme palco circular era ocupado por um Dj que tocava música eletrônica européia, a iluminação mudava, constantemente, havia milhares de balões espalhados por toda parte, muito confete e serpentina também completavam o cenário. Vez por outra era possível esbarrar em garçons que tentavam abrir caminho entre a multidão levando e trazendo garrafas de espumante, vinho e outras bebidas.
As amigas estavam se divertindo bastante e não viram a hora passar, beberam, paqueraram e dançaram mais do que já tinham feito em qualquer outra festa em suas vidas principalmente porque havia duas pessoas mascaradas e fantasiadas de palhaços venezianos que já estavam brincando com elas a algum tempo, um deles possuía uma roupa preta com plumas e uma máscara dourada e o outro possuía uma roupa que parecia ser cinza e usava uma máscara branca muito bem trabalhada com detalhes em dourado e preto; eles iam e vinham, dançavam, abraçavam e se insinuavam para elas. Mirela abraçou um dos palhaços só por diversão e ao passar as mãos no corpo do estranho escondido dentro da fantasia, constatou que era uma mulher, pareciam um casal, mas nenhum deles falava qualquer palavra; toda aquela diversão inusitada estava indo bem, até que Rosana desapareceu.
Nem Andréa nem Mirela viram quando a amiga sumiu, mas em princípio pensaram que ela tinha ido ao banheiro, porém como ela demorou demais a aparecer foram procurá-la, sem sucesso. Tentaram ligar pra ela, mas o telefone chamou várias vezes e ninguém atendia; começaram a se preocupar. Voltaram para o grande salão e andaram no meio da multidão procurando, imaginaram que talvez a amiga tivesse encontrado algum cara e estivesse dando uns beijos em um canto, o problema era que o lugar era enorme e estava completamente cheio de gente.
A certa altura as luzes se apagaram por completo, a música quase ensurdecedora continuava tocando juntamente com o som de êxtase da multidão que gritou de alegria no momento em que escuridão se fez presente, porém, foi naquele momento que Mirela começou a desconfiar que havia algo muito errado acontecendo ali. A luz ficou apagada por pouco menos de um minuto, mas foi tempo suficiente para Mirela sentir uma forte dor no braço; quando as luzes voltaram e recomeçaram a pulsar na batida da música psicodélica, a moça viu que seu braço estava sangrando; aparentemente havia sido cortada quatro vezes por algo muito fino e extremamente afiado, era como quatro cortes de navalha paralelos vertendo sangue que acabou sujando sua roupa quando ela tentou limpar. De repente alguém esbarrou em suas costas e ela sentiu ser abraçada tão fortemente que pensou que suas costelas fossem estourar; ao tentar ver quem era a pessoa que estava atrás não conseguiu se virar, mas foi fácil saber quem a estava agarrando tão violentamente porque pode ver claramente os braços vestidos com as mesmas mangas longas de um daqueles mascarado veneziano que as assediaram durante boa parte da madrugada, porém havia um detalhe macabro. Ele não estava mais usando luvas e suas mãos não se pareciam com mãos humanas, as unhas pareciam cinco garras escuras e afiadas, naquele momento ela soube o que a tinha ferido no braço. Mirela tentou gritar, mas estava perdendo o ar tão rápido que pensou que fosse desmaiar, e o pior ainda estava por vir.
Andréa tinha se afastado de Mirela para procurar por Rosana, mas como não teve sucesso voltou; quando chegou mais perto, o que viu foi um daqueles palhaços venezianos mascarados agarrando sua amiga por trás de uma forma tão violenta que havia levantado o corpo da jovem do solo alguns centímetros, a face de Mirela demonstrava o terror que surgiu em seu coração. Andréa tentou ir na direção deles para ajudar de algum modo, mas foi impedida pelo outro mascarado que saiu do nada e a segurou pelo pulso esquerdo tão forte que ela pensou que seus ossos da mão tinham quebrado; antes mesmo que pudesse gritar por ajuda, também foi puxada para junto do agressor numa velocidade absurda, ele a abraçou como se fosse beijá-la mesmo usando a máscara, mas a invés disso falou ao ouvido da vítima:
_ Não tenha medo, meu amor, só vai doer no começo._ disse.
A voz era gutural e medonha; o coração da jovem começou a bater ainda mais forte dentro do peito, bombeando sangue cada vez mais rápido dentro do corpo da vítima indefesa. O agressor ficou frente a frente com a jovem e ela pode ver através dos olhos da máscara, dentro havia olhos acesos como duas brasas vermelhas e no mesmo instante que o olhar dela cruzou com o da criatura, Andréa sentiu uma inexplicável tontura, perdeu parte das forças, como se algo dentro de sua cabeça estivesse sendo desligado forçadamente, anestesiando todo o seu corpo. Depois disso o mascarado ergueu a máscara e ela pode ver que era um homem, embora não fosse exatamente humano, era pálido, com o rosco marcado por grandes olheiras e pequenas veias arroxeadas, além disso os dentes enormes pareciam ter saído de uma fantasia de vampiro. Só que não era uma fantasia. 
O vampiro curvou o corpo dela como se fosse beijar a boca da vítima, segurando-á pela cintura e pela nuca; Andréa sentiu a dor dos longos dentes sendo cravados dolorosamente em sua carne na altura do pescoço, naquele momento, mesmo com poucas forças ela gritou, não pode evitar, mas o grito saiu fraco e foi facilmente encoberto pela altíssima música eletrônica que pulsava ao redor. Andréa sentiu o sangue sendo sugado avidamente através da ferida e ao mesmo tempo começou a perder gradativamente a consciência até que por fim tudo ficou escuro e sem qualquer som, para sempre...
...Rosana abriu os olhos, não sabia onde estava; não sentia nem conseguia mexer nada do pescoço para baixo, ainda sentia-se tonta, ela estava em alguma espécie de lugar úmido e sujo, havia um terrível fedor de carne apodrecida. Do lugar onde ela estava, podia ver vários corpos de pessoas espalhados por toda parte, provavelmente estivessem todas mortas, isso explicaria o terrível fedor daquele comodo. Rosana não se lembrava muito bem como foi parar ali e o motivo de não poder mover nenhuma parte do seu corpo, mas de repente avistou algo que simplesmente destruiu sua sanidade.
No lado oposto ao que ela se encontrava, estavam os corpos de suas duas amigas e eles também já não tinham mais vida.

O aroma da noite e o gosto do sangue



Julian possuía um ritual noturno que fazia questão de cumprir sempre que possível, embora estivesse cada vez mais difícil. Ao menos uma vez no ano ele gostava de ir a algum lugar onde pudesse contemplar o mar e o céu; costumava ficar de pé durante algumas horas, completamente imóvel, apenas relembrando como era a sua vida antes de se tornar o monstro que era atualmente. Seu olhar se perdia no horizonte onde o mar negro se encontrava com o céu noturno e sua mente permanecia absorta nas lembranças que sempre culminavam com uma grande explosão de ira em algum momento, por isso estava ficando cada vez mais difícil dar vazão a seus desejos sombrios, pois ele sempre precisava encontrar uma forma de disfarçar sua ação de modo que não deixasse rastros visíveis principalmente para os caçadores que reviravam as noites trás de encontrar algum noctívago que pudessem destruir. Entretanto, Julian precisava sair para ver o mundo de vez em quando, passava muito tempo enclausurado, e chegava um momento que não conseguia mais suportar.
Naquela noite em especial ele parou em uma espécie de píer de onde podia ver ao longe a parte da orla que havia sido revitalizada recentemente; havia muitas luzes, música, diversão e inúmeras pessoas andando de um lado para outro, assim como também, vários bares repleto de clientes sentados tanto do lado de dentro quanto de fora, em mesas redondas rodeadas por cadeiras especialmente colocadas ali para tornar a interação entre cada grupo de pessoas melhor e mais fluida.
Julian estava bem distante de toda aquela alegria, parado nas sombras próximo de um pedaço quebrado de um antigo deck de madeira corroído pelo tempo e pela maresia, mas mesmo a distância ele conseguia ver claramente tudo o que as pessoas faziam do outro lado, seus olhos naturalmente e perfeitamente adaptados para ver através das sombras conseguiam vencer facilmente toda a distancia que separava ele que estava parado no lado antigo da orla, das pessoas que aproveitavam a vida no lado renovado, certamente havia quase quinhentos metros de distancia entre eles.
Do lado de lá ninguém jamais poderia imaginar que estavam sendo observados desde que o sol se foi e a escuridão passou a governar na cidade; muitos bebiam, alguns fumavam, havia risos, namoro e todo tipo de interação que Julian apenas lembrava. Já tinha sido como eles, já tinha caminhado durante os dias e sentido o ardor do toque do sol em sua pele, lembrava-se de como era beber uma cerveja gelada, de como era comer uma comida quente e bem preparada e principalmente lembrava do prazer de sentir os lábios de uma mulher tocando os seus, mas tudo aquilo era passado, já não podia fazer nada daquilo; o sol agora era seu maior inimigo, a mais leve exposição aos raios ou a simples luminosidade do astro rei  lhe causava dor extrema e cegueira instantânea. Seu organismo não era mais capaz de sustentar nenhuma bebida ou comida, e se tentasse ingerir algo acabaria sentindo dores internas e convulsões durante horas; o único alimento que ainda conseguia ingerir era o sangue quente. Além disso, ele também não possuía sensações físicas, ou seja, se levasse um tiro ou fosse esfaqueado, não sentiria nenhuma dor, e durante muito tempo aquilo parecia uma dadiva, porém ficou claro que não era, porque de igual modo ele não era capaz de sentir prazer físico fosse os beijos de uma mulher sobre sua pele, fossem as sensação efêmeras provocada pelo clímax de uma relação. Julian tinha se tornado tão frio quanto uma pessoa morta, com uma única diferença de que ele ainda estava andando pelas noites e drenando pessoas sem sentir qualquer culpa por fazer isso.
Parado ali nas sombras envolto em trajes escuros ele parecia um fantasma abissal, um espectro de outras épocas, mas não era isso; embora fosse portador da mesma antiga maldição que tornou seres como Vlad Dracul famoso em todo mundo. Ele não era uma sombra do passado, pelo contrário, era um terror noturno que se adapta às novas circunstâncias, aprende, evolui e se reinventa muito mais rápido do que qualquer outra criatura da criação; Julian sabia muito bem quem era, ele era o terror e a fúria, um legítimo filho da noite, arauto do mal, o portador da morte; e como de costume era hora de completar seu ritual.
Sempre começava parado apenas contemplando o mar e o céu noturno, e gradativamente deixava suas memórias despertarem seu desejo; no princípio tudo o que ele buscava para se inspirar era sentir o doce cheiro do ar noturno, não havia nada igual no mundo. Cada noite carregava uma miríade de odores e perfumes, mas nada se comparava com o próprio cheiro da noite, doce e suave que parecia enchê-lo com forças obscuras que nem ele mesmo sabia de onde vinham. O cheiro da noite era o início do seu ritual pessoal.
Ele despertou de seu transe inebriado pelo aroma da noite, como se a própria Nix tivesse derramado seu perfume em toda parte. Aquele era o sinal que aguçava os sentidos de Julian e o levava a um estado de frenesi que só podia ser saciado com uma coisa. Sangue. Ele começou a andar na direção da parte iluminada da orla, gradativamente começou a apertar o passo e passou a correr, correu cada vez mais rápido, muito mais rápido do que uma pessoa comum poderia, em seguida saltou deixando suas roupas escuras esvoaçarem no ar quando tocadas pelo vendo, saltou mais uma vez e mais outra. Seus dentes longos, suas unhas agora eram garras e seus olhos completamente inumanos denunciavam sua natureza.
As pessoas continuavam sua festividade quando, de repente, Julian simplesmente caiu sobre eles como uma tempestade obscura que varreu a maioria dos presentes antes mesmo que se dessem conta do que estava acontecendo; os risos se transformaram em gritos, a alegria se converteu em desespero; ele era como uma sombra dançando de forma macabra no meio dos vivos, tão rápido que quase não era possível vê-lo ceifando as vidas de todos os que encontrava em sua frente, rasgando e bebendo a jugular de alguns ou simplesmente eliminando outros.
Gritos, horror, choro, desespero e morte. O ritual de Julian começava com o aroma da noite, mas sempre terminava com o gosto do sangue; e naquela noite, mais uma vez, estava concluído. Depois de estar saciado, ele desapareceu como que por bruxaria sem deixar vestígios, como somente uma criatura da noite faria.

Até o próximo ano.

Pacto com vampiro



Denis entrou no escritório de sua própria casa e deu de cara com a última pessoa do mundo com quem gostaria de falar.
_ Oi Denis. _disse Salazar logo que Denis entrou.
Salazar estava sentado na cadeira atrás da mesa, portanto, a cadeira do próprio Denis, e estava com os pés sobre a mesa, reclinado de forma irônica.
Denis era um grande homem de negócios, um empresário conhecido no meio pelo apelido de “Midas” numa alusão ao rei da mitologia grega que transformava tudo quanto tocava em ouro. Denis tinha um tino para fazer negócio que o colocava à frente dos demais concorrentes, nos últimos dez anos ele havia erguido do nada um verdadeiro império, estava sempre fechando os melhores contratos, obtendo os maiores lucros e aumentando o seu patrimônio.
_ Salazar!_ disse Denis sobressaltado; não esperava encontrar o outro tão sedo e muito menos em seu próprio escritório. _ Como entrou aqui?
O empresário andava constantemente cercado por seguranças particulares que vigiavam a grande mansão que ele havia comprado num condomínio de extremo luxo no bairro mais nobre da cidade. Esses mesmos seguranças também forneciam proteção vinte e quatro horas por dia para Denis quer ele estivesse na empresa, quer em outro lugar e o empresário havia dado uma descrição minuciosa de Salazar para que a equipe nunca deixasse aquele homem entrar na empresa ou sequer se aproximar dele.
_ Ora! Entrei do mesmo jeito que vou sair; pela porta da frente.
Um momento ínfimo de silêncio entre os dois, seus olhos se encarando frente a frente até que Salazar prosseguiu:
_ Até parece que você tem me evitado. Está difícil me aproximar de você; se eu não tivesse meus métodos não estaria aqui hoje.
_ O que você quer?
_ Só estou acompanhando meus investimentos _ Salazar sorriu deixando um par de dentes longos amostra e fez um gesto com os dedos indicador e polegar da mão direita, balançando-os _ entendeu? Investimentos? Fiz uma piada.
Denis não sorriu; estava gelado como uma pedra de mármore.
_ Ora, sente-se. _disse Salazar retirando os pés de sobre a mesa e se levantando_ Afinal, o escritório é seu.
Ele rodeou a mesa enquanto ajeitava o paletó escuro e a gravata vermelha, depois sentou na cadeira em frente. Denis finalmente caminhou até a sua mesa e tomou acento na cadeira atrás dela; estavam finalmente frente a frente e muito próximos.
Salazar recomeçou:
_ Sabe. Eu estive pensando no dia em que nos conhecemos e em tudo o que aconteceu desde então.
O empresário parecia não ter voz para conversar e o outro percebeu a inquietude que tomava conta do “amigo”.
_ O que está havendo com você Denis? Está desconfortável com minha visita? Não se preocupe, ainda não é definitiva, mas sabe como é, tenho que manter meus negócios em dia.
_ O que você quer?_ disse Denis finalmente forçando um pouco a voz da garganta para fora._ Vá direto ao ponto, não tenho tempo para conversar com você.
O empresário tentou passar segurança e foi bem sucedido, mas Salazar estava acostumado a conversas mais ríspidas, atitudes violentas e todo tipo de outras ações temerárias.
_ Finalmente! _ bradou_ Um pouco de coragem nessa alma atormentada; o que é isso Denis? Acaso você acha que está livre de mim? É isso?
Denis titubeou, mas em seguida atacou novamente com o dedo em riste apontando para o outro:
_ Não lhe devo nada, saia da minha vida, não quero mais que me procure.
_ Ora, mas nós temos negócios. Fizemos um trato, não se lembra?
_ Uma “ova” que temos! Paguei minha dívida e espero nunca mais ter que fazer nada para você.
Salazar mordeu os lábios e inclinou a cabeça levemente, ele analisava cuidadosamente a atitude o outro, os olhos encarando Denis que quase podia ver a ira por trás deles.
_É sempre assim, quando estão precisando de ajuda não medem esforços, aceitam negociar e entram em todo tipo de tramóias, estratagemas e até mesmo pactos, como é o nosso caso, mas depois que tudo se estabiliza aí a coisa muda de figura. Tenho novidades para você meu amigo; Nós ainda temos negócios pendentes e só termina quando eu disser.
Já fazia um ano que não se viam e dez desde que Denis pediu a ajudada de Salazar.
Denis se levantou irritado e bateu com os punhos cerrados contra a mesa sólida:
_ Mas eu matei um homem pra você!
O sorriso percorreu os lábios de Salazar levemente.
_ Foi apenas o começo._ Ele disse. _ Sente-se
_ Sente-se uma “ova”; saia do meu escritório, saia da minha casa e não volte mais aqui!
_ Sente-se Denis.
_ Estou ordenando. Suma da minha vida! Vá pro inferno de onde você saiu!
Salazar também se levantou, a voz alterada, a face completamente pálida, uma veia levemente azulada pulsando na testa e os olhos vidrados se transformaram em olhos de algum animal medonho do inferno; diferente de tudo o que Denis já vira na vida.
_ Eu mandei você sentar Denis! O que é isso!? Acha que pode me encarar? Esqueceu quem sou eu? Você acha mesmo que eu sou um de seus seguranças particulares ou guarda-costas engomadinhos. Acha que está falando com um de seus empregados debilóides, ou com seus clientes vaidosos a quem você compra com elogios, dinheiro e meretrizes, ou talvez com uma de suas Prostitutas. Não meu amigo; não e assim que funciona comigo. Agora, cala... essa... boca... e senta!
Salazar sorriu em seguida, a face tornou-se amigável novamente, os olhos voltaram a ser normais, ele sentou e só recomeçou a falar quando Denis também tomou acento, o que demorou alguns segundos.
_ Agora, onde estávamos? Ah sim; eu dizia que estive pensando em quando nos conhecemos. Você era um Zé ninguém, não tinha nada, nem dinheiro, nem mulheres, era apenas um contador fracassado, malsucedido, sem clientes, nem empregados, nem nada desse império que agora tem. Era um maldito viciado. Você ia morrer e eu lhe dei uma nova chance por um pequeno preço.
Denis olhava impassível ao outro enquanto ele falava:
_ Mas você era a pessoa perfeita para uma parceria comigo, você era e é um homem ganancioso, ambicioso, intempestivo e sem escrúpulos; meu tipo de homem. As possibilidades de ganho eram ilimitadas e pelo que vejo você evoluiu bastante.
Numa parede ao lado da mesa onde eles estavam reunidos havia uma estante repleta de livros e com alguns pequenos objetos decorativos, dentre os quais se destacavam uma estaca e um crucifixo.

Os olhos de Salazar passaram pelos objetos e voltaram a repousar sobre Denis. Ele continuava falando pausadamente:
_ Eu acreditei em você, lhe dei um pouco do meu sangue no dia em que você quase morreu naquela sarjeta, eu trouxe você de volta da beira do abismo,  fiz os contatos certos, acionei as pessoas que você devia conhecer, até suas garotas de programa fui eu que selecionei, ou já se esqueceu de tudo que lhe fiz?
Denis murmurou em resposta:
_ Você me atacou; bebeu meu sangue, e quase me matou. E essa minha nova vida é repleta de horrores, eu não sei se ainda sou humano.
_ Pois é; você deveria me agradecer por tirá-lo daquela situação, mas ao invés disso, você me evita, contrata seguranças, não sai mais de noite para não deixar que eu o encontre, gasta rios de dinheiro com sistemas de vigilância mesmo sabendo que nada disso vai me impedir de te encontrar; tornou-se paranoico. Eu acompanho você Denis, o tempo todo, meus olhos nunca saem de você, todos os dias. Entenda bem, eu sou sua companhia mais próxima, estou sempre perto, observando e interagindo. Muitos de seus clientes, sou eu quem manda que procurem por você; homens e mulheres ricos e atolados em problemas; você aproveitou bem e sugou o máximo que pode não foi?
_ Muito do que conquistei foi com meu próprio esforço. _ Rebateu o empresário.
_ Assim você me decepciona meu amigo, mas eu creio que no fundo você sabe que fui eu quem realizou seus desejos ocultos; agora olhe só para você; cada noite com uma mulher diferente, mansões, carros esportivos de luxo, dinheiro, poder, sexo; tudo isso sem limite desde que continue servindo a meus propósitos.
_ Eu estou vazio. Não sinto mais nada, eu tento, mas não consigo, não sinto prazer, nem alegria nem qualquer outra coisa. Só desejo, raiva, culpa e dor. Não quero mais viver assim.
Salazar sorriu novamente e disse:
_ Isso ou eu quem decide.
Denis suspirou ao falar:
_ Por que você está relembrando tudo isso?
_ É muito simples; eu fiz você se aproximar de um homem em especial, apresentei vocês dois, induzi a esposa dele a se achegar até você, sob meus conselhos você a seduziu, e sob minha influência ela se apaixonou, você o matou, a roubou e eu a enlouqueci. E de repente você se viu com uma tremenda quantia de dinheiro nas mãos, uma bolada milionária e as coisas começaram a acontecer não foi isso?
_ Foi. Mas eu não queria ter matado aquele homem. Pensei bem a esse respeito e não há um só dia em que eu não me sinta culpado.
_ Não minta para mim, queria sim, você faria qualquer sacrifício para alcançar esse status que tem agora, até mesmo fazer um pacto; _ Salazar riu _ mas não se preocupe ele era uma pessoa como você.
_ Como assim? _ Havia algo pairando no ar, uma sensação estranha nas palavras de Salazar.
_ Eu o conheci antes de você me encontrar, e agora é que vou entrar no motivo de minha visita hoje, aquele homem também não tinha nada quando o conheci, eu fiz por ele o mesmo que fiz por você, mas quando te conheci, vi que a vez dele já tinha passado; toda a riqueza e poder que eu o havia presenteado, passei para você. Agora é hore de levarmos nossa parceria para outro nível.
O sangue gelou nas veias de Denis e ele se ajeitou na cadeira, mas na verdade aquilo foi uma estratégia para levar a mão até um pequeno botão na base da mesa, logo abaixo da tampa, e acionar a segurança; em alguns instantes o escritório estaria repleto de guarda-costas armados.
_ Então o que vai acontecer? _ perguntou Denis.
_ Farei com você o mesmo que fizeram por mim há muito tempo atrás.
_ Não quero ser como você; não quero viver me alimentando apenas de sangue humano, não quero deixar de sair durante o dia.
_Você não tem escolha meu amigo, eu já decidi.
Denis falou ligeiramente alterado:
_ Não quero ser um vampiro e você não é meu amigo.
Salazar estalou os dedos das mãos enquanto falava:
_Você não será apenas um vampiro, você será meu escravo, e não me importo se você me vê como inimigo; sua vida me pertence...
A porta do escritório se abriu e três seguranças entraram com as armas em punho.
_ Atirem nele! _ Gritou Denis levantando-se mais uma vez e correndo para o canto da parede.
Os guarda-costas procuravam a pessoa, mas só Denis estava na sala; Salazar continuava sentado olhando para tudo aquilo com um semblante irônico.
_ Atirar em quem? _ Perguntavam os seguranças.
_Nele! Atirem nele aí sentado na cadeira! _ bradava. _ Matem esse desgraçado!
Salazar se levantou, olhou para a estaca e o crucifixo na estante ao lado, ajeitou a roupa e saiu pela porta, passando entre os homens enquanto Denis gritava loucamente para que eles atirassem.
Denis amaldiçoou o dia em que pediu a ajuda de Salazar.
Na porta, Salazar se voltou e falou antes de deixar o escritório; seus lábios não se moveram, Denis ouviu a voz do seu inimigo dentro de sua própria mente. Ele disse:

_ Você não sabe nada sobre mim e não tem ideia do que vira em seguida. Chegou a hora de honrar nosso pacto; e o seu tormento começa a partir de hoje.

Quebrando o silêncio -- Relato de um vampiro -- 01



Uma semana atrás eu estava parado bem no centro da praça de alimentação de um grande shopping carioca, a multidão de pessoas andava de um lado para o outro e pareciam nem perceber minha presença ali entre eles, estavam tão ocupados e envolvidos com seus divertimentos passageiros que nem sequer tiveram a mínima noção de que o ser mais hediondo da criação estava bem ali ao lado deles. Eu não costumava sair muito antes da transformação, eu tinha medo, medo do que as pessoas podiam fazer a mim; nunca fui popular, nunca tive muitos amigos e fracassei em quase tudo o que tentei fazer na vida, mas foi então que algo grandioso aconteceu e me tornei a criatura que sou hoje; no início eu não pensei assim, relutei em aceitar, mas com o passar do tempo percebi que minha nova condição poderia ser muito benéfica para a minha existência.

Obviamente, se você está lendo isso sabe muito bem que sou um vampiro, porque esta página é dedicada a contar relatos fictícios deste personagem do folclore mundial, porém, e embora a sociedade moderna, incluindo você, creia que não existimos e que vampiros seriam apenas personagem de livros e filmes, o fato é que aqui estou eu às quatro da manhã diante de meu laptop escrevendo pela primeira vez a minha história para quem quer que deseje saber como realmente é a vida de uma criatura da noite.

O errante



Noite de Sexta-feira, onze horas, o bar estava quase totalmente vazio, com exceção de dois clientes e o dono. Na verdade fazia muito tempo que outras pessoas não frequentavam mais aquele lugar.
O bar era pequeno, composto apenas por um balcão de alumínio com tampo de vidro onde ficavam expostas latas de cerveja de diversas marcas. Um freezer grande escondido num canto, encostado na parede atrás do balcão, onde ficavam as garrafas de cerveja e outras bebidas. Acima do freezer, uma série de prateleiras de vidro com fundo em espelho; em cada prateleira estavam várias marcas de bebidas quentes e destilados, e, na última prateleira uma coleção única de bebidas ardentes desenvolvidas pelo próprio dono do estabelecimento.
Do outro lado do balcão; no lado onde outrora transitavam os clientes havia apenas quatro bancos com assentos redondos e sem encosto; junto à frente do tampo de vidro do balcão, uma mesa de sinuca que não era utilizada fazia meses demarcava o centro do bar; os tacos, todos, já tinham se espatifado em brigas motivadas por apostas sem sentido ou por qualquer outro tipo de bobagem que as pessoas, na ocasião, achavam de suma importância.
Uma televisão parcialmente destruída pendia de um suporte frouxo e não menos velho em uma das paredes do bar; a antena do aparelho mantinha um chumaço de palha de aço preso a uma das hastes de alumínio, a fim de tentar melhorar a péssima imagem que chegava pela transmissão; não estava adiantando nem um pouco. O volume do som era baixo, chiado, e a imagem chuviscava com interferências provocadas pela falta de sintonia do canal.
O revestimento da mesa de sinuca já estava solto e manchado pelos inúmeros banhos de bebida que levou durante sua utilização, mas não era só isso, havia também manchas de sangue que já estavam desbotadas pela ação do tempo. A madeira da qual o equipamento era feito estava soltando pequenas lascas por causa do mau uso e da falta de manutenção, aliás, como tudo dentro daquele estabelecimento moribundo.
O chão era de um piso de madeira que jamais fora polido; agora eles tinham uma cor opaca, sem vida, fosca, onde a luz do teto não refletia, e sim, era absorvida pelo chão que ainda estava terrivelmente sujo; era como estar andando sobre um pedaço escuro de um lamaçal que se solidificara.
O teto possuía uma iluminação forte, mas a luz parecia ser consumida pelo lugar, talvez fossem o chão e as paredes escuras ou talvez fosse algo na atmosfera do lugar, algo ancestral, que nenhuma das pessoas ali presentes sequer tinha ideia do que fosse.
Sentados sobre dois dos quatro bancos estavam dois homens, dois antigos frequentadores que não tinham outro lugar para ir, eles não conheciam nenhum dono de bar que poderia servi-los e cobrar somente no final do mês; essa pratica era pouco usual nos tempos mais modernos. Tudo girava em torno do dinheiro vivo no mundo dos botecos mais sofisticados; além do mais, aonde eles achariam outro lugar onde pudessem provar as combinações de aguardente que Osmar, o dono daquele bar, costumava inventar.
Aqueles dois indivíduos, Argemiro e Humberto, vinham todas as noites e se sentavam ali, pediam algumas doses da cachaça especial e tomavam silenciosamente entre uma careta e outra; já não conversavam mais, embora fossem todos muito amigos e de longa data, mas eles já tinham passado por muitas coisas juntos; divórcio traumático de Humberto, falsas acusações e prisão de Argemiro por fraude no emprego e a queda brusca dos negócios de Osmar quando este foi processado várias vezes por familiares de antigos frequentadores que se envolveram em brigas muito sérias em seu bar. Aqueles três homens tinham suportado mais até do que desejavam, tendo apenas a amizade de um ao outro nos momentos mais turbulentos de suas vidas. Portanto, eles conformavam-se, agora, em apenas ver uns aos outros, porque o silêncio mantinha as dores das feridas anestesiadas.
Na verdade eles não costumavam mais falar nada das antigas feridas abertas por suas esposas, amigos, patrões e todas as pessoas em quem algum dia já confiaram, mas secretamente cada um deles tinha desejado um milhão de vezes que toda aquela trajetória de fracassos, afrontas e humilhações acabasse. Nunca disseram uns para os outros, mas já tinham pensado muitíssimas vezes em dar cabo de si mesmos, porém não tinham coragem para tanto. Assim resolveram se dedicar totalmente à bebida e se afundar o máximo que pudessem até finalmente encontrarem o fim. Foi uma espécie de pacto silencioso e inconsciente entre os três, que embora não soubessem atraiu algo ainda mais terrível para suas vidas.

A porta do bar se abriu e um sujeito passou por ela sem fazer barulho, retirou um grande capuz escuro que usava sobre o casaco e depois fechou a porta atrás de si calmamente. Caminhou pelo pequeno lugar, passando pela mesa de sinuca e chegando até o balcão onde os outros estavam debruçados.

A família Ankh.



_ Vá pro inferno!

Sulivan Shadow foi arremessado sobre uma mesa que se partiu; a bagunça tomou conta do lugar, todas as pessoas entraram em confronto, a música alta contribuía para a adrenalina crescente e a iluminação psicodélica completava o cenário, a maioria dos presentes brigavam. Um grande tumulto havia se formado.
A casa noturna chamava-se "Tempestade" estava com sua lotação máxima, e muitas pessoas ainda tentavam, sem sucesso, entrar na portaria, mas claramente era impossível, havia uma enorme fila do lado de fora.
Sulivan chocou-se contra o solo, balançou a cabeça para espantar a tontura e teve de pensar rápido para não ser pisoteado; aquilo já estava fora de controle, às mulheres gritavam em meio à correria desordenada e um grupo de seguranças foi acionado para tentar conter a turba, mas parecia em vão. Sulivan não conseguia mais distinguir quais pessoas ali eram vampiros e quais não eram.

_ Mas não é possível!_ exclamou Jack_ esquivando-se das pessoas que, ensandecidas, tentavam correr para toda parte e lugar nenhum.

Algumas se esmurravam mutuamente, quebravam cadeiras e mesas, arremessavam garrafas e usavam como arma pedaços de qualquer coisa que encontravam.

Uma voz familiar subiu no meio da confusão:

_ Sulivan Shadow!_ Gritou um sujeito; e repetiu em tom de deboche_ Vá para o inferno!

Com um movimento rápido e agudo o rapaz se colocou de pé, olhou em volta procurando o homem que o chamava, até que próximo da porta de saída viu seu alvo. Frey Walsh.
Aquela casa noturna era sem dúvida a mais badalada do momento em Sydney, Autrália, cidade que aliás, era uma das preferidas do jovem caçador de noctívagos, Shadow Sulivan; duas das três mulheres mais importantes de sua vida moravam nesta cidade. Sua irmã Gezebel Victorya Walsh, a segunda mulher mais importante na vida dele; que era a administradora de uma pequena fortuna da família walsh, algo em torno de oito bilhões de dólares, Gezebel era tutora legal dos demais irmãos mais novos; exceto é claro, "Sully", que passou por um árduo processo de emancipação contra vontade.
Frey Wash era o mais novo casamento de Gezebel; o terceiro, uma criatura sem nenhum escrúpulo mesmo para os padrões da família vampírica, sem honra, e que fazia tudo ao alcance para conseguir seus objetivos sombrios, passava por cima de tudo e todos sem a menor cerimônia. Até agora.
Na verdade ele era o par perfeito para Gezebel; ela era exatamente como Frey, talvez até pior, mas Sulivan Shadow Jurou para seus irmãos mais novos que não caçaria Gezebel, pelo menos até resolver uma pendência mais antiga com a Terceira mulher mais importante de sua vida.
A Condessa Alexandra d' Turon, o demônio em forma de mulher; a pior criatura que ele já conheceu na vida ou na morte. Alexandra, de ascendência franco-polonesa, era a disciplinadora de Gezebel, tinha à suas ordens um pequeno exército de assassinos das sombras, todos apaixonados por ela e que entregariam suas vidas sem pestanejar para satisfazer as vontades maléficas da Líder e condessa da “família”.

Noite vermelha



Os morcegos estavam por todo lado, um dos caçadores tombou tão rápido que os outros nem perceberam o que estava acontecendo. Um deles tentou atirar para várias direções, mas logo viu que não acertaria ninguém. Esse caçador estava perto do carro e tentou correr para buscar abrigo dentro dele, era um SUV médio que usavam para caçar as criaturas da noite, mas não teve tempo de chegar no veículo, foi abatido por um vulto escuro que o agarrou, quebrou seus braços e o atacou bem no pescoço.
Quando o corpo do segundo caçador tombou os dois que restaram finalmente compreenderam o que estava acontecendo. Eles tinha se reunido ali como faziam uma noite todos os meses para se agrupar e sair pela madrugada caçando criaturas que vivem entre os vivos sem ser vivos; ou seja, eles caçavam vampiros e perceberam que naquele momento algum vampiro os havia encontrado para se vingar.
_O que esta acontecendo aqui? Onde estão os outros? _ perguntou um dos caçadores que ainda não tinha percebido a gravidade do que estava ocorrendo.
O outro respondeu enquanto tentava criar algum plano de ação:
_Eles estão mortos. _disse o líder.
Os dois caçadores que restavam procuraram abrigo abaixados junto a alguns galões de combustível vazios, suas armas de caça estavam todas dentro do porta-malas do seu SUV, portanto, estavam praticamente indefesos e encurralados como ratos. A tempestade de morcegos continuava açoitando todo o lugar; o som era quase ensurdecedor e de repente tudo simplesmente parou. Não havia mais morcegos voando em lugar algum.
O caçador mais inexperiente disse:
_Vamos até o carro, precisamos da armas. _Ele já estava se levantando de detrás dos barris quando foi impedido pelo caçador líder que o segurou pelo ombro e o puxou para baixo.
_A criatura ainda está aqui. _disse o líder, e continuou. _ Nosso ponto de encontro foi descoberto, algum de nós foi seguido esta noite. Precisamos abater esse monstro ou ele vai nos matar a todos.
_E como vamos enfrentar ele sem nossas armas?
_Precisamos usar de alguma estratégia...
Foi interrompido pela vós do vampiro que havia invadido aquele lugar, antes, seguro.
_ Você sabe que não vai sair daqui vivo esta noite, não sabe? Se você se entregar a mim agora eu prometo que deixo o outro viver. Afinal de contas ele não tem nada a ver com o nosso passado.
Era uma voz feminina e soava calma e sedutora, o vampiro que tinha simplesmente derrubado os outros dois caçadores aparentemente sem fazer esforço era na verdade uma fêmea.

A cria de Hades



405 A.c
Surrado...
...Acorrentado a uma haste de madeira fincada ao chão...
...Perdendo rapidamente os sentidos...
Debilitado pela fraqueza, pela fome e pelo frio...
Humilhado pela derrota mais retumbante que suas tropas jamais provaram, e...
Desesperado por vingança.
Só há dois destinos prováveis para um derrotado em batalha, uma vida de escravidão ou a morte. Um homem, um guerreiro, um herói como o prisioneiro em questão, acorrentado naquela haste, não desejava nem um nem outro, seu coração ardia em fúria, seu orgulho ferido pela derrota doía muito mais do que seu corpo triturado, com ossos quebrados, pulmões perfurados e carne dilacerada. Seu corpo vertia sangue, que no chão onde ele estava deitado sem forças para se pôr de pé, respirando em curtos haustos, se misturava à terra negra do solo. Esparta sob o comando do impetuoso e tirânico Lisandro atacava e destruía tudo o que era relativo aos atenienses e a seu exército.
Perseguia e aniquilava cada soldado, cada homem que ousasse ficar em seu caminho; e o prisioneiro ali aguardava o desfecho de sua vida de combates como um porco aguarda a hora do abate.
Todo o corpo do prisioneiro estava esfacelado pela brutalidade com a qual soldados espartanos o haviam emboscado; vários espartanos, um ateniense, a morte era certa.
Deitado e aguardando que sua vida se esvaísse pouco a pouco, mas com um ódio tão grande e destrutivo dentro de seu coração que seria capaz de se pudesse, levantar e aniquilar a todos os soldados que dormiam naquele acampamento; ele o faria.
Atenas, a cidade da sabedoria, berço da democracia e do pensamento livre; não podia crer que Esparta vencesse a guerra. Diziam que Lisandro possuía duas alianças que o estavam levando à vitória; a primeira com Ciro o moço, irmão de Artaxerxes o imperador da Pérsia e a segunda, muito mais abominável, com o próprio Ares, deus da guerra.

A lucidez do prisioneiro era como um fino cordão em tempo de se partir, e mesmo caminhando na estreita beirada do desfiladeiro do vale das sombras o soldado ainda conseguiu pensar nas Moiras prestes a cortarem o fio de sua vida.
Balbuciando ele disse:
_Não vou morrer aqui.
O ódio dentro de seu peito já tinha feito contato com algo tão medonho que o faria se arrepender amargamente pelo resto de seus de dias na terra. E sem perceber ele pronunciou as palavras:
_Eu Apelo! Hades...
Sussurrou mais alguma coisa que não conseguiu entender, sua consciência o tinha abandonado, seus sentidos se foram e ele estava entregue à morte finalmente.
Mas não morreu.
Uma tempestade de imagens como que refletidas em águas sombrias, dominaram a mente do prisioneiro.
As batalhas que travou...
As pessoas que matou estavam todas em algum lugar, do outro lado de um rio, rostos distorcidos por dor e agonia o observando como se uma punição muito mais severa fosse recair sobre ele.
Palavras ecoaram nas sombras.
_Minha alma... Sede de sangue...
_...Perpetuamente...nunca mais...
Ele reconhecia a sua própria voz e se ouvia falando, mas não havia mais ninguém lá além dos condenados que olhavam atentamente.
As palavras e imagens continuavam brotando, mas como aquilo era possível? Não tinha mais nenhuma força em seu corpo, seus órgãos não funcionavam mais, não havia mais sangue para verter e sua força de vontade tinha se dobrado ao abraço gelado da inexistência.
Porém, ele não morreu.
Ouviu sua voz novamente dizendo:
_... E assim será.
E outra voz respondeu do meio das sombras:
_ Então, que assim seja.
Sentiu um forte cheiro de fumaça, fuligem, enxofre; um frio mortal se apoderou de seu corpo. Ouviu várias vozes que lamentavam por ele, não entendia o que diziam, mas sabia que lamentavam por ele, com muito pranto e lamúria.
Abriu os olhos incomodado pelo sol que já estava no ponto mais alto do céu, sentia o corpo todo formigar; ainda deitado olhou em redor como pôde; o acampamento do qual era prisioneiro não existia mais, tudo tinha sido consumido por chamas, e quanto aos guardas e soldados inimigos só restava uma montanha de corpos pálidos.
O prisioneiro já não estava mais acorrentado e incrivelmente ficou de pé, não sentia dores; girou sobre os calcanhares, não avistou nenhuma alma vivente e nesse momento levou sua própria mão ao coração, percebeu que não batia.
Estava morto, mas estava vivo. Além disso, havia muito sangue em suas mãos e em sua boca, como se ele mesmo tivesse matado a todos ao redor e bebido o sangue diretamente de seus corpos.
Hades tinha respondido ao chamado. O homem agora era um monstro; caiu de joelhos e com um misto de ódio, repulsa e tantos outros sentimentos, deixou sair um grito, não, um urro tão animalesco que não podia ter saído de uma alma mortal.
Alcançara a imortalidade. Mas a que preço?

Outros contos

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